segunda-feira, julho 28, 2008
quinta-feira, julho 10, 2008
terça-feira, maio 06, 2008
segunda-feira, maio 05, 2008
A meias com DRUMMOND...
Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros vizinhos
A linguagem sobe escadas, do mais moço
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
Ao mísero caçula
Somos cinco, Sofia, Marta, Tiago, Diogo, Ricardo.
Comunicação de diferentes sentidos, a fluir com muitos ritmos
O sexo em alternância, 3 rapazolas e 2 moçoilas
Palavras saltitonas, pujantes na cadência que assumem
Baleia, padreco, cascavel, gostosa, metralhas.
Tudo isso?
São seis ou seiscentas
Distâncias que se cruzam, se dilatam
No gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
Os mesmos copos,
O mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?
Quarto-camarata, camas em dois andares,
O wonderbra na silhueta em poster gigante,
O código de comunicação entre os univitelinos
Um buraco que espreita para a outra divisão
Manas meninas-moças a explodirem em plena adolescência
Bruce Lee na televisão da sala, esperava-se a qualquer momento
Tortura de cueca…
São estranhos, próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.
Será que o indevassável cresceu entre nós?
Quando a (minha ) igreja construiu muros de suposta sapiência. Talvez
O “santinho do pau oco” a invejar a vida dos metralhas. Fugir aos cânones.
A Brasileira a provocar muita urticária na mana roliça.
Os nossos limites, os seus sofisticados sistemas de sobrevivência…
Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
Vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?
Voltar ao embondeiro, encostar a cabeça
Bambolear uniforme, sentir a ausência do verbo
Canção de embalar,
Adormeço. Seguro. Leve.
quinta-feira, abril 10, 2008
sexta-feira, março 28, 2008
CCB, meninos, meninas, senhores, senhoras. Poesia
sábado, março 22, 2008
Daqui para a frente
Muitas árvores, relva fresca e muito molhada, minhocas, joaninhas, carreiros de formigas, covas e lugares traiçoeiros, bola de futebol à menina (da barbie), guelas à séria – os especiais e os reles - , um menino mais crescido e uma menina a crescer…
- Eu sou mais interior, sabias, sabias. Sou mais interior!
E a casa na árvore? Repara, tem várias tábuas lá em cima, outros pedaços de madeira a fazer de escadas, e um grande bocado de corda grossa, provavelmente, para descer. É uma pena estrar destruída. Se tivesses uma casa destas…
- Eu tenho um lugar destes. É o meu lugar secreto, só vou lá com as minhas melhores amigas
E o que fazes lá? Brincas com as tuas amigas como brincas comigo, ou vais dormir de olhos abertos, ou vão para lá esconder os vossos sonhos e segredos?? E não me disseste como é, se é numa árvore, se precisamos de uma senha de acesso e um mapa para lá chegar??
- Que parvoíce, claro que não. Nada disso. Aquele é o meu espaço interior, reservado apenas aquilo que eu sou, percebes?
Não, eu sou mais exterior. Sinto-me confortável na sujidade, no acessório, no barulho e no néon. Gosto mesmo do pisca-pisca e daquele bulício nas ruas, gente a falar de qualquer coisa. A maralha e o caos são mais confortáveis.
- Gosto mais de dentro, gosto mais de estar dentro. Cá com as minhas ideias
E agora? Vou-me embora, os nossos pés molhados de terra húmida, o teu caminho vai-te levar para onde??? O que mais queres? O que é que desejas agora mesmo? O que é que farias se tivesses todo o poder do mundo?? Todo, todo !!!!!
- Agora sigo sozinha. Vou crescer mais um bocadinho, não achas???
A noite branca
Não sei como te chamas. Já procurei no catálogo das plantas exóticas, ontem mesmo, dei a volta à minha enciclopédia de espécies raras, e tu simplesmente não encaixas. Uma outra natureza. Cravas as raízes na multidão e soltas silenciosos esgares…
- A noite, esse poço interminável. Como cavar mais fundo??
Várias mantas e outros trajes grosseiros compõem a forma como te apresentas, como se quisesses esconder o teu porte imperial, um passado que se advinha na liderança, na congeminação da mudança, no limiar de uma outra forma de estar…
- A noite, porquê tanta tormenta, quando acabam todas estas dúvidas?
És árvore-guardiã, descobri. A tua expressividade, ou talvez, a forma como se conjugam em ti, - olhar e contracção do músculo facial - , incomodam pelos contornos não humanos. Não és homem, és espectro, és vaga. Continuas a tentar soprar algo pouco tangível…
- A noite dispersa-me, não me permite o contacto, retirou-me a expressão!
Não és condição humana, não és. Ocorre-me a palavra vertiginoso quando te vejo, quando o teu estado de absoluta imobilidade me interpela, com a seguinte proposta…abismo, precipício, irreversível mergulho…
- Mortais traunseuntes à luz do dia, elementos acessórios da minha noite.
domingo, março 09, 2008
Vida dupla
Sempre a fazer merda nos arrebaldes do Miguel Bombarda. Você sabe, o hospital. Eu, o meu irmão,
e a minha santa mãezinha que Deus lhe valhe...
- Ó Alfredo, Albino, onde é que vocês estão???? Desgraçados...
Estávamos em cima de um muro pejado de vidros. Ainda hoje desconheço como fazíamos aquilo. Mas, o Sr.Ramiro ia para dentro e nós - ZÁS-PÁS-TRÁS - logo ao pé-da-laranjeira, fazer o que tinha que ser feito. Gamar laranjas. Enchia o bandulho aqueles macacos da oficina. Vida de aprendiz, muita graxa espalhada.
- Ó Alfredo, porra, vadio dum cabrão!!!
Parece que ainda a ouço, ó Sr.Ricardo. Com 10 anos já andavámos nós a puxar carroça com ferro velho, e o Albino a iniciar-se na Oficina. Só o via a carregar ferramentas mais pesadas do que ele, o corpo todo vergado ao peso de um martelo. Eu punha-me sempre à coca a ver o que é que sobrava. Passavam os malucos e eu berrava...
- Ó maluco, ó maluco, volta para a prisão!!!
A noite aproximava-se, nós na fila da sopa dos pobres. A minha mãe de cabeça baixa erguia uma tijela, e de baixo, a uma outra altura, nós conseguíamos ver com clareza tudo o que poderíamos esperar para enganar a fome. Muita fome, muita fome, Sr.Ricardo. Você não sabe o que é isso.
- Não, não sei meu bom amigo. Não sei o que é sentir verdadeiramente o VAZIO no estômago. Não sei.
Foi um golpe de falcão. Comprámos esta espelunca depois de muitos anos a labutar a sério. Uma pessoa morre de tanta labuta, sr. Ricardo. De sol a sol, sem descansos para a mulher, copos e os miúdos. Foi labutar e padecer. Muito sinceramente, nunca fui homem de andar pelo parque mayer ou nas meninas coristas.
Queria estudar, um dia disse a mim próprio...
- Ó Alfredo, podias ir tirar um curso de contabilidade. Tens a cabeça ainda fresca para essas coisas!!!
Foi assim que me tornei contabilista à noite. Chelas inteiro vem bater-me à oficina por alturas de IRS. Digo-lhe do coração, que você sabe que não sou homem de mentir, em Abril ou Maio, tenho aqui mais gente a tentar safar-se ao fisco, do que a querer passar o respectivo automóvel na inspeccção. Diria que é uma questão de prioridades. Tudo na vida, é uma questão de escolha.
Agora ocorreu-me...
- Por acaso, o Sr. Ricardo, já fez a declaração ????
Não, pois bem, se quiser já sabe que pode contar com o Alfredo. Você sabe que já o safei muita vez.
- No mato, é que safei muitos. Em Angola, salvei muitos amigos. Muitos!!!
Volta e meia vem-me a guerra à cabeça. Porra, um gajo saía para o mato, e tinha licença para matar. Muitas vezes ia com a magana para o mato, mas nunca abandonava a coronha, não fosse o diabo pintar feio. Qualquer coisa que mexia, eu, balázio nos cornos. Limpei vários assim. Várias dezenas...
- Ó Alfredo, vai trabalhar a sério. Isso de contar histórias ao Sr.Ricardo chega. Toda a gente sabe que tu nunca saíste do quartel...durante a guerra!!!!!
Aturo as malcriações deste gajo há mais de 40 anos. Porra, já não podemos voltar ao tempo de suposto heroísmo, que vem logo este pulha a lembrar-me que hoje se olhar para baixo, não consigo ver. Dramático, não conseguir ver...apenas a protuberante barriguinha...apenas...
- Há que apreciar um bom OUVIDOR de histórias. O Sr.Ricardo põe-se mesmo a jeito!!!
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Le ballon rouge

Quero um balão vermelho a perseguir-me, já disse. Não volto atrás, o que está dito está dito, assinado, ponto final.
Balão vermelho em Alfama
Não me venham cá com anjos da guarda, seguranças, nossa senhoras, videovigilância, medidas de precaução especial ...o diabo a sete, quero mesmo um balão vermelho.
Balão vermelho agarrado à barcaça transtejo
Um balão vermelho a seguir-me por todo o lado, qual cão guia, ou perdigueiro fiel de caça. Urge estar perto, ao lado, em cima, em baixo, quando estou a dormir ou mesmo a pensar. A maior parte do meu tempo. E o balão vermelho...
Balão vermelho a esfumaçar na chaminé Quimigal
Chego a casa, o dia de labor intenso na parte mais baixa das costas. Na janela que espreita uma Oliveira, eis que aparece o balão vermelho. Está presente, é só isso que lhe exigo. Estar, apenas.
Balão vermelho cheio de rebuçados e farinha
O caminho faz-se pelas vielas históricas de uma certa cidade. Varinas e criançada a fugir à clausura do espaço interior, uma certa garoa a anunciar-se, olho para cima de relance e sinto o voo do balão vermelho. Salta de telhado em telhado, de história em história, de segredo em segredo.
Balão vermelho a bater furiosamente na parede
Parece-me que é chegada à hora. Estamos sempre em viagem, os objectos da nossa inquietação vão mudando, o balão vermelho sabe há muito ao que veio, sabe há muito o que é suposto fazer na sua viagem. Não plana ou flutua, assume o voo picado. Não, não se trata de um predador. É apenas o balão vermelho.
Balão vermelho a espreitar pelo buraco da fechadura
Um pouco tímido e envergonhado, permanece na errância do seu comportamento infantil. Por ora, apetece-lhe um pouco de intimidade feminina. Quer fazer parte...



