domingo, dezembro 17, 2006

Fora de moda

Por estes dias, ao parar na conversa de uns tantos transeuntes, volto à ideia de manifestar as minhas intenções para a vida, os meus propósitos na relação que mantenho com todos os outros. Aqueles diziam "...ó Felizmino, porra!!!! Chega dessa merda de andares sempre a dar o dito pelo não dito. Vamos mas é colocar a coisa no papel...". De repente, comecei a sentir-me o Felizmino daquela história, ou seja, urge untar a mão à laia de compromisso de honra. Inspirado pelas figuras romanescas que preenchem os livros da minha infância, apetece-me dar forma a um compromisso que pretendo consagrar no tempo que me coube em sorte. Em texto corrido ou saltitante aqui vai disto…

Fazer o belo cocó todos os dias (um pouco de escatologia para começar assenta bem, dizem por aí)

Erguer o meu espaço, uma casa que possa ser central na vida dos meus – família e amigos. Imagino vários montes de livros, receitas de cozinha, estatuetas africanas, cd´s, quase a delimitar um mapa das coisas que me são caras. Não pode deixar de haver muitas plantas, uns quantos animais (tudo menos pombos), e sim, uma cozinha com forno a lenha onde eu possa demorar-me nos meus cozinhados, um dia, muito afamados. Outras tantas cores nas paredes feng-shui, uma cama XXL onde a malfadada roncopatia não te possa incomodar, um trampolim para fazer saltitar as ideias que pululam aqui dentro, uma juke-box com selecção musical própria. Tudo isto a pulsar com a visita, a estadia, o cruzamento de todos aqueles a quem estendo um grande abraço.

Construir uma história…

Poder-me rir às bandeiras despregadas com o primeiro cocó, as primeiras palavras (que seja papá, ou vá lá, Ri ri ca do), os primeiros arranhões, o primeiro olhar constrangido para aquela amiguinha tão bonita, enfim, os contornos iniciais de uma outra condição nas nossas vidas.

De infâncias reconstruídas com o labor reflexivo…

Manter o mais velho dos rituais que me estruturam, o encontro semanal com os jornais. Outrora o Globinho, a revista Manchete, passando pelo Record e as páginas desportivas do Público, o Independente e a irreverência made by MEC, novamente o Globo e a histórica revista Cruzeiro, como esquecer o DNA, absolutamente decisivo para estar na vida de uma outra forma, agora o Y e a Sexta, que ainda têm que se fazer à vida para perdurarem nestas memórias.

Um galão e uma torrada com grossas camadas de manteiga…

Voltar a andar pelos sebos ou alfarrabistas conforme a origem do português, chafurdar por entre o pó, a desordem e páginas moribundas para mais uma conversa com o senhor Livreiro, artífice desse ofício de orientar outrem ao encontro do LIVRO, ou apenas um nostálgico pretexto para reencontrar aquele PAI das cercanias do Sahara carioca.

Um cavalete, alguns quadros por pintar, muita tinta espalhada…

Poder sentar à beira de um mar idealizado por minha MÃE desde sempre. Um alpendre demorado em dunas douradas, a tranquilidade ambicionada, um rosto sulcado pela paz. Sentaremos, mãe. Eu, tu, Sofia, Marta, Tiago e Diogo, sim, Sentaremos.

Um grande puff no meio da sala, auscultadores no ouvido…

Vocês, meus manos, fiquem a saber que estarei por perto quando a vida teimar na errância, ou nos outros momentos em que podemos sorrir de coração livre. Sempre por perto, mesmo que a distância se imponha.

O saxofone enlevado por um certo violino…

Um terreno, uma terra fértil dos meus sonhos de menino bom, a companhia de todos que tanto amo, a certeza que estou a deitar mãos à minha obra. Com vagar, feita em fios de filigrana, no ritmo próprio de uma outra idade. Natural e simples, sem excessos e sujidade, no tom certo.

O mosaico retalhado das nossas vidas em película fotográfica…

Dar vida à revienga de uma bola de Catchu, as suas travessuras por entre pernas alheias. Nunca deixar morrer essa infância feita com uma bola debaixo do braço e a expectativa de fascinar o mundo através dessa arte de esférico nos pés.

Uma rede ocupada por essa invejável capacidade de nada fazer, apenas planar…

Não calar a inquietude que alimenta a minha avidez pela pessoa humana. Essa que se revela nos autores que subsidiam o meu imaginário, nos quadros que aprumam a minha estética pessoal, na música que me ensinou a conceber paisagens sonoras, no encontro fortuito nas veredas da grande urbe.

Os corpos despidos sob o calor de lenha incandescente…

Perder-me na Dança que dispensa tudo, palavra, olhar, intelecto. Apenas toque numa relação que se adensa em ímpeto, desejo, instinto. Trata de sermos um pouco animais, tribais, carnais e outros tantos ais. O som único do bandaneon de Piazzola, a beleza que se afirma na ousadia pelo risco, pela não-normalidade de dois trapezistas em frágil equilíbrio sobre o abismo. Tango. Vida ou morte.

O sorriso leve-leve a provocar ressonâncias de emoção…

Quando uma outra idade chegar, poder sentar na cadeira do meu Avô, reunir filhos e netos, e, finalmente, tornar-me um Contador de Histórias. Contar uma vida plena, sem censuras, limites, imposições, em que as personagens possam aludir a Vinicius – o meu parceirinho de sempre – no seu desígnio de viver no Absoluto. Contar os outros, Contar-me, Contar-vos.

Amar tudo em ti…Sempre…

sexta-feira, dezembro 15, 2006

A banheira que diz olá...

06:45 da manhã, o som de alvorada insiste em dizer que está na hora de me fazer a um novo dia. No horizonte próximo, mais um momento de um quase diálogo que se impõe a cada manhã.

Aproximo-me, um primeiro olhar, paredes outrora alvas a dar forma à banheira onde todos os dias, cumpro o ritual. Sinto os primeiros estremecimentos, qual monstro que desperta ao primeiro sinal de alerta...

Abro a torneira esquerda, a da água quente (por vezes, convém traduzir), o primeiro bom dia, a água que escorre aos soluços, hesitando em cair, teimando em não ficar quente. Abro a cortina, enfio-me na dita, ouço a minha voz...Estou pronto!!!!

O corpo arrefece, começa a dar sinais de alguma irritação. A tal quase sorri...

Aos segundos sinais de vida da referida, vulgo vibração, cedo em abrir mais a torneira vermelha, agora sim, água límpida a cair, a jorrar em abundância sobre a mesma. Com água a ferver, por premeditação daquela, obrigo-me a abrir a torneira fria, e aqui instala-se o conflito...

Passo a instrumentar o jogo de torneiras, ora para a direita, talvez para a esquerda, de volta à quente, num diálogo estranho, pouco compreensível, aludindo a muito mais que um bom dia...Como se a respectiva, não estivesse interessada em fazer ouvir as suas palavras. Apenas ruído, e muita provocação. Uma molequada, uma travessura de menina levada...

A custo, vou tirando o sabão, e decido-me por encerrar o diálogo. Há coisas mais interessantes para fazer, do que enredar-me nas provocações de uma banheira qualquer...

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Na mouche, sr. Proust

"Em amor é um erro falar-se de uma má escolha, uma vez que, havendo escolha, ela tem de ser sempre má."

In A Fugitiva, Marcel Proust

domingo, novembro 26, 2006

Soneto

De frente para azul quase infinito do mar


SONETO DA FIDELIDADE
(Vinicius de Moraes)

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
o seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Estoril, Outubro, 1939


Camila Morgado na caixa do lado, da BSO de Vinicius

sexta-feira, novembro 24, 2006

Fazer acrobacias...

Encontrei-te...
Aprendi a escalar montanhas. Sou alpinista
Encontrei-me...
Em plena acrobacia



Camila Morgado in Vinicius

OS ACROBATAS
(Vinicius de Moraes)

Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
o grande mar de estrelas
Através de milénios de luz.
Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
na calma convulsa da ascensão.
Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
lá onde o infinito
de tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!
Tensos
pela corda luminosa
que pende invisível
e cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
do grande mar de estrelas
onde dorme a noite
Subamos!
Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
na fibra do pescoço
os pés agudos em ponta.
Como no espasmo.
E quando
lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus
Num último impulso
libertados do espírito
despojados da carne
Nós nos possuiremos.
E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Ouve lá, senhor Golfinho...


Entrar com passos seguros, o sono de quem irrompe o dia a horas madrugadoras, sentar-me no lugar de sempre, colar-me à janela, espreitar de soslaio a vizinhança cercana, apalpar os próximos minutos, colar-me à janela. Uma nova mirada aos semblantes laterais, quiça, a beleza num piscar de olhos....

- Ouve lá, Senhor Golfinho, este governo chupa-nos até o tutano

Primeiras gordas na Sexta ou Y, talvez Kyoto dos jardins japoneses com desenho harmonioso de crisântemos, flôr de lótus, e a silhueta de um corpo imaginado por entre quimonos vários. Cai a chuva, o dia assume os tons da noite, a sucessão de aldeias desta urbe, as caras familiares, os putos e as suas malas Sportbilly a caminho da escola. Espera-os aquelas aulas de matemática, em que a vergonha e a inibição obriga a professora a apontar o menino Golfinho na pauta colorida em 3 por 4...

- Menino Golfinho, venha ao quadro resolver esta equação de segundo grau!!!

Às vezes, o meu lugar permanece ocupado. Pressinto logo o que aí vem. Começo a sentir as silhuetas avantajadas de uns e umas, a roçar pegajosamente o meu ombro esquerdo. Efeitos outros de uma mini e sande de corato depois do Olivais e Moscavide aviar o Alcochetense com uma valente goleada, uma cintura que cresce proporcionalmente ao número de filhos, ou a bejeca despachada ao fim do dia quando o patrão insiste em chamar o senhor Golfinho ao seu escritório. A frieza tirana dos números logo dispara...

- Senhor Golfinho, ou isto melhora ou pode-se dar o azar de ....

O oitenta um da carris - Prior Velho/ Praça do Comércio - está a chegar a um dos seus destinos, a estação fluvial do tejo. Levanto-me a tempo de sentir aquele bafo de uma senhora bonita que insiste em mostrar a todos, que boca lavada e hálito fresquinho é a primeira condição para que o dia possa ter contornos positivos.

- Senhor Golfinho, às vezes os odores podem tramar a vida de uma pessoa!!!

A ponte, o exercício de trigonometria (seno+coseno+ seno), duas formas triangulares em suspenso sobre o rio. Sinto-me sempre um personagem do Smoke, a voltar ao mesmo lugar a cada manhã, quase à mesma hora, para flagrar a respiração própria de cada dia através DA imagem. Para Paul Auster, a esquina, no meu quotidiano a ponte.

- Senhor Golfinho, saudades à patroa!!!

Volto a dormir até à cidade de sonho e futuro como se afirma em outdoor camarário. Quando acordo, sento-me ao lado de uma criança que me mostra um futuro onde deixou de ser possível sonhar. Será??

quarta-feira, novembro 08, 2006

A Sr.ª Delfina

Na aldeia de Póvoa de Midões não há homens. Não literalmente mas, tal como na cena inicial no cemitério do último filme de Almodóvar, é como se estivessem todos enterrados e apenas soubéssemos da sua existência através das conversas das mulheres. Quem se levantar cedo e andar pelas ruas de cinzento baço, branco brilhante, pontuadas de preto, do granito, ainda cobertas pela alvura da geada nocturna, apenas vê o movimento quase homogéneo das mulheres, ora para a igreja, ora para o cemitério.
Digo quase homogéneo porque novamente os homens marcam presença, sem serem vistos, nos trajes femininos. As viúvas envergam o lenço negro que lhes cobre todo o cabelo grisalho e as casadas distinguem-se pela roupa que varia entre o branco e as diferentes tonalidades de castanho, como num retrato sépia. De facto, se o mundo se resumisse a Póvoa de Midões nunca se teria inventado o Kodachrome (aquele mesmo da música do Paul Simon) e um simples retrato seria ainda um processo de largo minutos envolto em roupas de Domingo. Se exceptuarmos a invasão de emigrantes do mês de Agosto e a antena parabólica no telhado da Casa do Povo poderia dizer-se que aldeia estava parada no tempo de um outro senhor.
É preciso olhar muito atentamente para o bulício feminino para encontrar a excepção a este padrão. Mais precisamente é preciso olhar atentamente para o que a Sr.ª Delfina traz debaixo do braço depois de sair da Casa do Povo. Aninhado no sovaco do mesmo braço que carrega o típico saco do pão, ainda tecido em algodão, podemos ver um exemplar do Diário Económico. A Sr.ª Delfina a meio da manhã, entre os afazeres da horta e a lida dos animais, liga a powerbox no canal Bloomberg, folheia o jornal e, nos dias bons, naqueles em que sorri e esfrega as mãos, faz uma chamada para Lisboa e dá ordens de compra ou venda. Nas tardes em que passo pela quinta, para provar do bolo mármore ainda quente ou de uma fatia de bola bacalhau, sou habitualmente bombardeado com histórias do mundo dos negócios, mexericos de aldeia e perguntas sobre o mundo de lá de fora: “Hoje ganhei 2.000€ em acções da PT, é este Verão que se arranja o telhado”, “Achas que apesar da minha idade eu ainda conseguia aprender a mexer na Internet? Era mais simples do que estar sempre a ligar para a correctora”, “Olha, já me esqueci como é que ponho os cd’s que me deste da Amália a tocar, vais ter que me explicar outra vez”.
Hoje (dia 5) a conversa foi diferente. Sentada na mesa da cozinha e antes mesmo de me estender uma cadeira, a Sr.ª Delfina disse: “ Sabes que dia é hoje? Se fosse viva, ela fazia hoje 55 anos. Sabes que fui eu quem a apanhou do chão? Chamaram a parteira tarde demais. A tua avó não se mexia com dores e fui eu quem a foi apanhar do chão.”

terça-feira, novembro 07, 2006

Para o caderninho de S.

Na tasca da esquina 4 olham para um daqueles jogos pequenos de uma qualquer liga estrangeira que a Sport TV insiste em transmitir pela noite dentro. Enquanto como uma daquelas sopas que já só se encontram em tascas de esquina e em casas de senhoras idosas, com talos grandes de couve e feijão inteiro, os 2 velhos da frente preferem Sagres. E, a julgar pela contagem de garrafas em cima da mesa e pelo levantar do tom de voz, já vão avançados na sua demonstração de afecto pela cerveja nacional.
Inevitavelmente, eu e o senhor de bigode grisalho por detrás do balcão somos agora mais espectadores daquele diálogo do que do jogo que passa na televisão. Um deles chora a morte da mulher como se a tivesse enterrado hoje e bebe para esquecer. Pelas respostas do outro percebemos que ela já se foi faz quase uma década e bebe apenas por solidariedade.

- Ó Joaquim, traz mais duas!
- Mais duas não, que já não consigo fazer o 4.
- Não consegues fazer o 4 porque nunca foste à escola. Traz mais duas que eu pago!

terça-feira, outubro 24, 2006

GOIABADA CASCÃO

Lá ia Conceição, moleque doce de leite, short azul com bainhas, cabelo da hora numa pose de índio playmobil, camiseta do colégio Peixoto, dedo grande inteiro na boca.

Dedão na boca, perna curta entalada pelo short azul de bainhas, Conceição pensava na ladeira que se precipitava naquele instante. Dava para sentir o drama do menino querendo chegar lá no Zacarias, onde moravam seus amigos Cebolinha, Mónica e Cascão, sim, o Cascão....

Quiosque do Zacarias, logo Conceição, Mamãe me compra o Globinho, mamãe indiferente, Conceição de novo, mamãezinha me compra o Globinho!!!!!

- NÃO LIGA NÃO, ZACARIAS!!! Agora tá nessa de ler jornal. Conceição não desistia, mamãe, ma...mãe, me compra, vai, me compra o Globinho, tem Mónica, Cebolinha e Cascão, o meu amigo Cascão, aquele que vai lá em casa. Tá lembrada não??

- VIXE MENINO!!! Larga do meu pé, você tem 4 anos, nem sabe ler direito, e já tá pensando em ler jornal, fazer amizade com Cascão. CONCEIÇÃO AUGUSTO, TOOOOOOME TENTO....

- PUXA O SHORT PARA CIMA, MENINO!!!...Sempre com essa mania de coçar a bunda!!!

Conceição continuava com seu amigo Cascão. Dessa vez, eles tavam sonhando os dois em cima de um pé de laranja lima, feito cavalo de dorsel. Acho que eles estavam com o menino Pedro Bala da Bahia, e o Pedrinho da roça mesmo. Estavam todos bolando como dar um trote daqueles, naquela menina que vive zombando deles, só porque tá na primeira série e tem 7 anos. É, ela mesma, a Bruna. De vez em quando Conceição voltava ao mesmo, mamãe me compra o Globinho!!!

- Short para cima MOLEQUE, não quero mais ver essa bunda!!!

Uma vez mais, Mamãe me compra o Globinho
- Short para cima, CONCEIÇÃO!!!!!!
Guri levado, Conceição não desistia facilmente, Mamãe me compra o Globinho
- Eu vou te dar o Globinho, sabe onde, sabe??? Não me amola a paciência!!!
Entretanto, Conceição voltava ao quintal do Cascão para acertar as contas com Bruna, a marota. Nesse instante, alguém disse para quem quis ouvir. Eu fui um dos que quis ouvir..."Eta menino arretado para ler jornal..."

terça-feira, outubro 17, 2006

Um pouco de Fisiologia

"...A melhor fase da nossa vida é quando estamos a ser fagocitados..."

sexta-feira, outubro 13, 2006

A Paternidade adiada...(3)

Maternidade Alfredo da Costa. Paredes vertiginosas, impossíveis de tanta brancura gasta, bocas aturdidas de cansaço e saturação, a vontade estampada de não fazer mais nada…

Onde é que eu estou? Alguém me diz onde é que eu estou?? Que cama é esta, porque é que estou deitada e sinto tanta dor?? Que coisa horrosa, janelas foscas, lâmpadas sobre bebés, caixas de vidro, muitas mulheres com ar estafado!! Paredes bolorentas, algumas pessoas de branco a passar à minha frente, choro de bebé, porra, mas onde é que eu estou? Não, não, não, não pode ser, é, será? Não, merda, não pode ser?? F..i..lh..o...NÃOOOOO....Na caixinha ao meu lado, tanto pêlo, bochechas gordas, e aquela coisa gusmenta junto ao nariz. Não, não é meu filho, estou aqui por engano. Dói tanto junto ao umbigo, o que se passa?

- Tem um rico menino!

Mas quem és tu? Que é que estás para aí a dizer? Rico menino? Cala-te, Não quero ouvir !!! Quem me dera que estes pensamentos tivessem voz. Cala-te, não é o meu menino. Tenho 13 anos, vivo onde ninguém quer morar, 4ª classe, nunca trabalhei, os meus cotas estão muito longe. Novamente a voz daquele gajo de branco...

- Um rico menino!

O quê? Quer-me tocar? Não, todo este hospital já me tocou, não , nem pensar. A bazar à minha frente, já!!! Ah, quer ver os pontos, pare com isso, não lhe dou o direito. Pare, por favor !!! Porque não consigo dizer-lhe para parar? Vá à sua vidinha, com as outras mãe todas. Ponha-se a andar daqui para fora...
- Um rico menino!

13 anos, não faço ideia de quem terá sido o f.d.p. que me fez este belo serviço. Deitada ao lado destas mulheres, quero voltar para o bairro. Toda a gente a olhar para mim, não sou um ET, parece que as ouço todas, tão novinha, uma menina que devia andar na escola, igualzinha à minha mais velha. Calem-se, já disse !!! Da minha vida eu é que sei, metam-se nas vossas vidinhas ridículas...

- Um rico menino!

Começaste a chorar baixinho, o que é que eu faço? Olho à minha volta, sim, é só copiar o que as outras mulheres fazem. Segurar-te, aiiii, que medo, não, vais-te partir assim, não, pára quieto, pareces o meu boneco julião, ai, ai, ai, ai!!! Ajuda-me, tem paciência, não sei fazer isto, horrível, não sei, MÃAAAAAE. Não sei...

- Um rico menino!

Já ouvi, não precisa de repetir, sim, tá com fome. Preciso de o amamentar!!! Gostava de lhe poder dizer para ficar, por favor, fique aqui, não sei fazer isto. Por favor, ouça os meus pensamentos, por favor, fique aqui!!! Encosto-o junto a mim, sinto o coração dele a bater, tenho que fazer tudo como o gajo de branco me disse. Aproximo o queixo dele, umas pequenas carícias na bochecha, envolvo-o no meu peito............PÁRA, PÁRA, isso é insuportável, pára, não consigo, não consigo, não consigo, dói tanto, dói tanto....Porque é que eu tou a chorar?? Não quero chorar...Meu filho, sim, meu filho !!!!

- Um rico menino!

Um rico menino tem que ter nome, penso eu. Tenho que ligar para o bairro, alguém tem que avisar a minha tia, dizer-lhe que SOU MÃE, parece inacreditável, usar essa palavra para me difinir, para caracterizar essa nova condição que nasceu em mim. Ela vai apanhar um susto, não vai perceber nada, vai achar que é mais uma das minhas brincadeiras. Nunca se viu barriga, como foi isto acontecer??? Boa pergunta, senhor enfermeiro, tenho que lhe dar um nome. Bruno Maurício? Não. Taonan Almeida? Não. Kelvin Thomas? Não. Rivelino dos Santos? Não. Bertoldo António? Não. Qual será o teu nome, meu filho?? Fortunato, sim, vejo-te como Fortunato, tá decidido, serás Fortunato...

- Um rico menino!

Outra vez, filho. Não pode ser, Fortunato, estão todos a dormir aqui. Daqui a pouco, isto passa a ser uma choradeira pegada. Filhinho...schiii...schiiii, vem para pertinho de mim, pronto, pronto, já passou, cólica má, pronto, pronto. Não podes tar com fome, só pode ser mais uma noite cheio da cólicas...Calma, Fortunato, por favor, olha o Pedro já acordou, daqui a nada, acorda o Francisco, a Madalena e aquela menina lá do canto. Vá...schiuu...schiuuu, dorme, meu anjinho, dorme que isso já vai passar....não consigo acalmar o meu próprio filho, que desespero, que aflição....

- Um rico menino!

Sim, pode pegá-lo, sim, tou exausta, estas 3 noites sem pregar olho, toda a gente acordada por causa dele. Tudo bem, pode ir dar uma volta com ele. Vejo-te a sair do quarto, ao colo do enfermeiro, não, não me pode tirar o filho, ainda o ouço a dizer há uns segundos atrás...está exausta mãe, eu vou levá-los por uns instantes...Não, não aceito. Onde é que estás Fortunato?? Onde?? Onde??? Saio do quarto e vejo-te no final deste corredor enorme, a dormir tranquilamente, embalado por uma dengosa melodia. Não, não é o pai, tu sabes bem disso. Não, não é o pai...

terça-feira, outubro 03, 2006

Porquê?

A língua é um local filha da puta. Recordo-me de um almoço de família, década de 80, aquele pato assado do forno da minha mãe (paraíso das minhas largas bochechas presidenciáveis) e o meu tio emigrado no Brasil sentado ao meu lado direito. A conversa começou logo estranha, com aquele sotaque telenovela mas muitos debicéis acima do som da televisão, como se se quisesse fazer ouvir lá do outro lado do Atlântico: “Oh Armanda, este pato está filha da puta! Bom pra xuxu”. Após o choque inicial lá percebi o contexto e nas semanas seguintes não havia frase minha que não envolvesse um filha da puta isto, um filha da puta aquilo… Finalmente a mão pesada do meu pai lá voltou a contextualizar-me no vernáculo deste lado do oceano.
Entendo o fascínio de Caetano Veloso pelas expressões que assumem um cariz distinto fora do meio que nos é familiar: "Acho bonita a maneira como, linguisticamente, os portugueses resolveram a questão do orgasmo. No Brasil, usamos o verbo gozar, como na França. Mas é como se estivesse acabando alguma coisa. Estou-me a vir é reflexivo, ou seja, fala de si próprio. E ainda dá uma idéia de continuidade". Claro que os ditadores do bom do gosto do Público não gostaram e lá deram a sua bofetada intelectual ao orgasmo lusitano do sexagenário baiano: “Ridículo!”. Porquê?


Porquê?
(Caetano Veloso)

Estou-me a vir
Estou-me a vir
Estou-me a vir e tu como é que te tens por dentro?
Porquê não te vens também?
Estou-me a vir
Estou-me a vir
(repetido até à doce exaustão)

sexta-feira, setembro 29, 2006

Motim no 13º Bairro Fiscal

Um senhor de fato azul e pasta castanha em pele entra na repartição das finanças do 13º bairro fiscal de Lisboa, aproxima-se da máquina das senhas e carrega num botão. A resposta é um latido mecânico perro, seguido do som de papel a rasgar e por fim um estampido metálico. Do orifício por onde deveria sair a senha emana agora uma pequena coluna de fumo preto. Um funcionário, depois outro e outro queixam-se que o sistema de gestão de senhas deixou de responder nos seus terminais. Como os números saem de forma sequencial independentemente do serviço a que cada utente pretende se dirigir gera-se a confusão, ninguém sabe quem é que está a seguir a quem para cada um dos guichets e iniciam-se negociações informais para decidir quem vai primeiro. Aproveitando-se da situação alguns utentes tentam criar nova jurisprudência de acesso que vá além da ordem de chegada e esgrimem-se argumentos e justificações elaboradas. “Eu já cá estive ontem, eu já perdi 15 minutos na padaria, eu deixei o arroz ao lume, há 2 semanas fui operada a uma hérnia e antes tinha sido a um quisto nos ovários que conseguia sentir quando esticava o dedo e se tivesse as unhas grandes…”
As negociações seguem a bom ritmo até que alguém se lembra de desabafar um “A culpa é toda do Sócrates”. Indignada, uma jovem com um ar muito saudável, reage violentamente ao soco e pontapé gritando “a culpa nunca pode ser de um homem tão charmoso!”. A violência alastra visando principalmente os funcionários por de trás dos balcões. O chefe de repartição tranca-se no escritório e pede reforços. Dos restantes bairros fiscais de Lisboa acorrem funcionários munidos de arsenal pesado: Todas as edições do Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares e Colectivas desde 1982 e formulários de auditorias e penhoras. A batalha segue renhida até à chegada da polícia de choque. O cenário é dantesco: funcionários públicos enforcados com fios de telefone pendurados no tecto, contribuintes em estado catatónico a sussurrarem “a alínea 313-B do decreto 378.908.812/96 não, por favor, não”. São disparados tiros para dispersar, que são interpretados num outro bairro ali perto, o 6 de Maio, como a chegada de mais um carregamento de droga. E como esta não chegando, e começando a circular o rumor de que tinha sido interceptada pela bófia ali para as bandas de Benfica, gangs de traficantes juntam-se aos contribuintes na batalha que se estende já por todas as repartições de Lisboa.
No dia seguinte Lisboa acorda em estado de sítio, com a contenda a alastrar a outros conflitos sociais latentes na sociedade portuguesa: Velhotes digladiam-se com mulheres grávidas pelos lugares reservados nos transportes públicos, distribuidores do Destak fazem emboscadas aos colegas do Dica da Semana, Assembleia da República vs. Chapitô e todos contra os taxistas. Acerca dos confrontos, o Papa diz que Portugal não segue a racionalidade do logos grego e que é portanto uma sociedade de cariz islâmico. Mahmoud Ahmadinejad afirma que nunca ninguém difamou assim o profeta e lança um ataque nuclear sobre o Vatic... 681 ao balcão 12… 681 ao balcão 12… Oiça lá, 681 não é o seu número? Estão a chamá-lo. O quê, ah, desculpe, estava distraído.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Debruçando-se da escarpa da falésia

Debruçando-se da escarpa da falésia João olha para baixo mas não vê o mar. Á sua frente estende-se antes uma planície irregular de terrenos cultivados de onde desponta a folhagem de batatas, couves e nabiças, as videiras trepam por canas e quando estas terminam continuam a crescer enleadas em árvores de fruto e oliveiras. O terreno, retalhado em parcelas mínimas traçadas por pequenos muros de granito, retrata a mesquinhez das divisões familiares que sulcam os rostos queimados dos habitantes da aldeia à sua direita. O cancro da avareza só possível pela riqueza do solo. João lá esteve antes e ainda ali tem ligações familiares mas a distância entre ele e estes é tão grande como a serra que marca toda a paisagem à sua esquerda. Não que João alguma vez tivesse tido uma ideia precisa do que queria ser. Sabia apenas não querer pertencer áqueles e morrer como eles, numa cama de hospital, desconhecedores do seu destino.
“Não me digas que acreditas no destino?” Perguntava-lhe alguém há dias acerca de uma morte estúpida numa praia do Rio de Janeiro. “Claro que não, referia-me apenas ao fortuito e ao acaso”. João mentiu sem intenção. Há não muito tempo atrás imaginava interpretações apartir da disposição das beatas num cinzeiro e antes disso fazia-o quando olhava para as marcas de pneus numa estrada depois da chuva.
Debruçando-se da escarpa da falésia João olha para baixo e desta vez vê o mar. À sua esquerda um farol, que ele interpreta como um indicar de direcção para o mar, e à sua direita uma povoação onde apenas conhece a senhora que lhe deu a chave do quarto da pousada, sinal claro de que há ainda portas por abrir. Há ainda um terceiro sinal, o primeiro de todos, a alastrar nas suas costas, uma nefasta herança familiar. Não lhe interessa se lhe restam 6 meses ou 6 dias. João vai fazer como sempre fez: adiar até à última hora e esperar que ainda tenha a clareza de espírito para ali regressar uma última vez.

Rasgar a vida...

Depois da Festa, ando à volta deste propósito - rasgar a vida - a explosão, outra fúria, uma revolta...

Uma letra inspirada de A Naifa, naturalmente um desejo de rasgar a vida de alto a baixo, uma folha de papel rasgada pelo meio, a necessidade de me perder por essas veredas que tanto receamos, uma vontade galopante de não controlar nada mais. Abandonei o controlo debaixo daquela tenda, quando o senhor Godinho exortava-nos à dança...

A raiva esperou o momento certo, preciso. Agora, pontapeio com violência todas as reminescências que sustentam a minha existência, essas mesmas que me remetem à impossibilidade de agarrar o afecto que vai pontuando a minha vida...

A pujança necessária para esmurrar esse saco de boxe, toda a minha força sobre essa massa compacta. De forma compulsiva, tento esmagar o peso da inércia, da imobilidade, esses momentos que adiamos, empurramos preguiçosamente para a frente...

Ouço as trombetas, vislumbro o sinal, passada firme no alcatrão quente, sinto a vida a ser rasgada de uma outra forma. Componho mais uma vez o filme, a banda sonora reúne a voz que sente o mesmo fascínio pelo risco, o limite, a película ilumina uma vida, outras mais, coladas, cosidas, uma folha de cicatrizes...

A pergunta que grita mais alto...

Vamos rasgar a vida?

domingo, setembro 24, 2006

A paternidade adiada...(2)

Deste lado do vidro, eu com o teu número na mão. Do outro lado, tu nos braços de uma enfermeira. "É o pai?" Pai? Quem? Eu? Não! Reflectido no vidro, a irresponsabilidade típica do número 17, repetida por mais de uma década, infinita como a curva de um 0.
Faltei-te. Faltei-te mais do que a tua idade te permite ter actualmente consciência. Ainda vou a tempo? Tens a certeza? Então faz a mala e anda daí. Primeiro conselho: travel light.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Vento leste...

Um vento forte, alegre, arranhado pelas vias torpes da vida...

O nome...Natascha...sopras desde Sarajevo, rajadas, sopro subtil, ventanias em rodopio teatral, sopras desde a tua terra, teatro de guerra na tua vida.

Lisboa, 2 filhos, uma mala embrulhada em referências por todos os balcãs. Amor e família separados pela impossibilidade de reconhecer os laços de outrora.

2 filhos, terras de Lisboa, língua metralhadora a disparar em bocas alheias. Orfã de afectos, sobram os temperos da tua cozinha, a necessidade de te atirares à sobrevivência. Primeiro, o desmanchar em simpatia num qualquer café para o turista, depois, a apropriação episódica de uma nova língua. Quando sobreviver deixou de te sobressaltar, fizeste TEATRO.

Fizeste teatro, derramaste a tua história, voltaste à vida...

segunda-feira, setembro 18, 2006

Soneto

Nara Leão não tinha a voz de Bethânia nem a exuberância de Elis. O que ela tinha era aquele sentimento único que transformou uma voz banal na diva da Bossa Nova durante as décadas de ‘60 e ‘70. O seu canto tinha aquela tonalidade reservada apenas a quem passou demasiadas noites acordada, numa cama grande demais, num quarto demasiado quente com a janela aberta para o som do mar.
Também tinha uma sensibilidade daquelas que reconhece um génio até quando se tropeça nele. Foi a primeira a gravar músicas de um tal de Chico Buarque, depois de Elis Regina ter dito que ia pensar no assunto. Nara não pensou, cantou. E de que maneira.

Soneto
(Chico Buarque)

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio

sexta-feira, setembro 15, 2006

Galão e meia-torrada

O dia começou torto, desviado. A noite foi madrasta, branca, aos repelões...
Os silvos desesperados do meu irmão roubaram-me essa possibilidade. Estava a vomitar a própria vida, precipitava a perguntar-me...meu irmão, como é possível viver com esta doença?...O meu silêncio perpetuou a dúvida, a incógnita. Gostaria de ter a resposta pronta, cabal, definitiva. Não tenho. Não consigo enfrentar essa pergunta, dói demais aqui dentro.
A minha vida ganhou mais um dia, este forçosamente pálido e inexpressivo. Arrastei um corpo cansado até este café, palco das minhas memórias recentes...
Um Galão e meia-torrada, se faz favor, pedi eu com voz embargada. Um pouco de leite, mais outro tanto de café, uma gorda fatia de pão generosamente coberta de manteiga. Galão, três rectângulos amanteigados, não será isto voltar a viver? Copo alto vazio, papéis embotados de gordura animal, símbolos maiores de um novo esgar de vida.

quinta-feira, setembro 14, 2006

A maior das maiores...

...Don´t you stop moving,
you must keep on going
Don´t you stop believing,
cause it´s people like you
make the world go...

terça-feira, setembro 12, 2006

A paternidade adiada...(1)

Os primeiros sinais...

Guardo com exactidão o primeiro momento, aquele em que a minha Joaninha descansou pela primeira vez no meu colo. Tinha 2 anitos, acordara com uma cólica, numa daquelas sestas que se arrastam preguiçosas por toda a tarde. Mãe e avó em outros trabalhos, sim, era por mim que ela brandia em choro estridente. Aproximei-me de mansinho, passo por passo, balbuciei umas quantas palavras ridículas. Nada, continuava a chorar...

O momento...Urgia uma atitude mais radical, mais envolvente...

Peguei-a ao colo, debruçei-a sobre os meus braços então seguros, olhei enamoradamente aqueles olhos profundos, e começei a cantar uma melodia nascida naquele instante, no embalo de um sentimento estranho até então...ser pai...

O resto da tarde com ela a dormir tranquilamente nos braços do tio feito pai...

sexta-feira, setembro 08, 2006

Uma questão de identidade

Casas a gritar pobreza. Bairro esquecido às portas de Lisboa. Copo de água. Gotas de limão. Abraço demorado. Sorriso a recuperar memórias. Mónica. Ricardo. 68 anos. Sotaque picado a francês. Uma vida inteira num olhar. Falávamos das férias em terras gaulesas...

Mónica - Ricardo, tenho uma nova vida para contar !!!

Ricardo - Mais uma (de uma contadora de histórias espera-se o deus e o mundo em palavras)...

Mónica - Até há 2 meses sabia que tinha um único irmão. Afinal tenho uma irmã, 68 anos depois de me descobrir nesta vida, sei que tenho uma irmã!!!!

Ricardo - Explique-me melhor essa história...

Mónica - Minha irmã, a que eu não conhecia, procurou o meu pai a vida toda nas revistas dos heróis da resistência.

Ricardo - Herói da resistência? o teu pai?

Mónica - Infelizmente, sim...

Ricardo - Infelizmente ???

Mónica - Sim. Sabes o que eu conheci do meu pai??? as medalhas, as fotografias. Sempre quis perceber a ausência, o que era a resistência. Esqueci-me do cheiro, da voz...

Ricardo - .....(silêncio)

Mónica - Durante muito tempo, ia todos os dias à estação aguardar pelo seu regresso. Nada. Até há bem pouco tempo, não conseguia ouvir o barulho metálico dos carris, nunca deixei de ver as rodas da carruagem, para cima, para baixo...

Ricardo - .....(esmagado)

Mónica - Voltando atrás, meu pai teve uma outra mulher antes da minha mãe. Penso que foi o grande amor da vida dele. Desse amor nasceu uma filha, Monique...

Ricardo - Outra !!!!

Mónica - Sim, é fantástica. Faz teatro, pinta, e, sim, tem o meu nome...

Ricardo - o amor de seu pai.

Mónica - Pouco depois de a conhecer, disse-lhe que não podíamos continuar a ser as duas Moniques...

Mónica - Respeitava o amor de meu pai, mas eu tinha que me sentir única, tal como aquele amor...

Ricardo - Questão de identidade.

Mónica - Tenho que sentir que fui única para meu pai, que sou única entre as pessoas da minha vida.

Ricardo - Sim.

Mónica - Não se nomeia de igual forma, o amor vivido a diferentes tempos...

Ricardo - Acho que tens razão.

Mónica - A primeira coisa que fiz quando cheguei a Portugal, foi trocar o meu nome. Agora sou a Mónica, aquela que sempre fui...

Ricardo - A única !!!!!!!!!!

Mónica - A única !!!!!

Uma pessoa grande que todos os dias acorda a fazer mudança na vida de muitas crianças. Muitas pessoas.

Sing, Mónica, Sing...

domingo, setembro 03, 2006

Agora escolha

É fazer o favor de escolher o seu estado de espírito esta manhã.

Opção A:

Opção B:

Versão americana e francesa do cartaz do filme The Graduate (1967)

quarta-feira, agosto 30, 2006

O meu amigo MANUEL

A tua vida encontrou a morte há um ano. Precisamente. Estava um dia abafado, denso, respiração arrastada. Tons escuros, tristeza mal escondida de palavras e encomendas excessivas. Procurei a tua voz. FOI-SE. Ficaram outros gritos, as intermináveis noites brancas, a película de um filme por fazer. Seguramente a preto e branco, daqueles com muito brilho no écran de cinema...
Fui ao teu encontro nesse dia, cumpria a deligência familiar, examinar a tua não-vida, o princípio da tua morte. Não me despedi, só consegui ver o teu corpo inchado, violentado, mutilado. O teu silêncio, a minha solidão. Novamente, o silêncio frio e cortante. E agora, o que me cabe dizer a quem espera pela tua vida lá fora? A mesma resposta. Sim, a mesma resposta.
Pequim 2008. Jogos Paraolímpicos, solo de campeões. O filme mostra a tua figura, bonita, a técnica admirável que te faz vencer no BOCCIA. Uma bola lançada com precisão, toda uma vida que se cumpriu. Ouço a tua voz...percebes agora, Ricardo, porque é que eu não podia continuar naquela cama, agarrado aquela ausência de mim. Tive que me vir embora. A resposta. Tua.
A tua mãe vestiu-se de branco no dia em que todos quiseram despedir-se de ti. Entrei no seu quarto, a imagem tragicamente bela, os meus olhos esculpiram uma Pieta negra, estavas ao colo menino-homem. Calmo, sereno. Uma Pieta. Outra resposta. Nua
O ritual. O cemitério. O teu corpo e a terra. Uma pá de terra a cobrir o teu corpo, outra ainda, precipita-se o cântico em coro de muitas vozes. O sopro resulta em catarse, quase transe, escondo-me, recolho a casa. Desabar, não. A não resposta.
Película descontínua, cortada à tesoura como os antigos faziam. Ouço a banda sonora repetidamente, Anthony liberta um... SET ME FREE. Eu acompanho no meu tom, na minha medida. Please let me answer something different, please let me sing something new.

terça-feira, agosto 29, 2006

Loud and clear

Loud and clear, Rodrigues, loud and clear. Aliás, ultimamente não faço outra coisa. Ela disse-me que não conseguia dormir cá em casa porque acordava com o som da vareta da cega que pede na esquina da minha rua, logo desde as 8h. Durante algumas semanas comecei também a acordar com aquele som cadenciado do metal contra a calçada, como se a simples sugestão me tivesse deixado tão tísico quanto ela.
Com o passar do tempo entra no ouvido e passamos a fazer com ele aquilo que queremos. Ligeiramente mais rápido e é ritmo duma percussão africana, mais leve e cristalino e é já o som de água a cair de uma cantaria depois da chuva. Um pouco mais irregular e sincopado é o estalido do vinil por baixo dos metais, por baixo do piano, por baixo da voz da Bessie Smith quando ela canta:

"I wrote and
asked the warden
why they call
the jail the Sing Sing
He said stand here by the tock pile
and listen to them hammers ring"

Sing Sing Prison Blues, Bessie Smith

segunda-feira, agosto 28, 2006

Abrir hostilidades...

"Ouve lá, miúdo, temos que escrever um texto para abrir o blog, ou lá o que valha. Uma coisa para mostrar ao quem vimos, e o que pretendemos, essas coisas todas..."
(Senhor guerreiro, companheiro de luta desta e outras redes)

Sim, é verdade, senhor guerreiro. Tentarei juntar umas quantas pessoas para tal designío. As pessoas. Penso sempre nelas - as bonitas e as feias - as grandes e as poucochinho - as que mostram e as que se escondem - pessoas alinhadas, arrumadas - pessoas em desatino, aos repelões - as que crescem - as que recomeçam - as vivas - as não-vivas - outras ainda que tem voz - e aquelas que pedem emprestada uma outra voz - pessoas que se cumprem - e as que esperam esse momento. PESSOAS. sempre pessoas.

"Ó meu filho, a vida não tem grande ciência, andamos sempre à volta das mesmas coisas"(Dona Arminda, A Velhota de um lar de idosos, Samora Correia)

Rebal, homem magro, tez pó escurinho, sorriso aberto, vai existindo num café de cachimbos aromáticos de água, onde não se vende alcool para os convivas. Toda a vida se confrontou com a mesma pergunta, toda a vida a mesma resposta...Partir para uma outra babel, onde seja possível responder, o que a sua Luxor não permite. A mesma resposta, Lisboa, Paris, Brugges, Tânger, Alexandria, a mesma resposta. Senta aí, Rebal, vamos beber um trago desta velha e boa aguardente. Sim, podemos dar uma outra resposta. Sim, podemos.

"Aqui não há cerelac, mexe mas é essas pernas"(Um velho corredor a fazer pouco da minha corridinha pela Expo)

Singsingh, vários peixes pirilampos ao pescoço, rosas cansados num dos braços, uma vida de um paquistanês feito lisboeta, cara cerrada, sorriso escondido. Parece dizer " a vida é muito mais que um prato Cerelac pela manhã". Tínhamos descoberto o nosso nome, o nosso blog, e eu nem gosto do raio da papa. O assombro tomou conta de nós, Singsingh, mostrou-nos a sua parte mole algures naquele corpo amarrado, singelamente, escreveu no nosso papel rasca, o nome dos seus três filhos. Foi a resposta dele, uma outra resposta. Três filhos, vender rosas a portugas a iludirem-se atrás de cervejas e coisas afins, três filhos, porra. Três.

"...Mas, neste local, e neste momento, a humanidade somos nós..."(Didi para Gogo ou Gogo para Didi, já não sei, leiam o texto)

Ouviste o grito, senhor Guerreiro, ouviste a pergunta, bom amigo?? Neste logro que transformámos em blog, a humanidade somos nós. Rebal, Singsingh, Arminda, velho incógnito, os nomes da nossa resposta...Estás a ouvir???

domingo, agosto 27, 2006

Sing

Sem playlist, sem playback, sem playbook