terça-feira, agosto 05, 2008

O elemento escatológico

O dia inteiro. Sentas no banco ao lado do último degrau da escadaria que vai até à igreja, vens suja, tão descuidada. Uma feiúra que denuncia a coisa doença. Murmuras…

- 3 pedras, mais 56 pedrinhas, orquídeas são às dúzias. Ó Joaquim…

O teu património organiza-se em sacos de plástico. Sacos de diferentes supermercados e lojas servem o propósito de guardar diferentes fios e cordas, revistas Maria, uma lata de salsicha aberta, algumas agulhas de tricot, pacotes de bolhacha de aveia já encetados, cabelos de bonecas…

- totoloto, euromilhões, olha a roda, olha a lotaria. Sexta anda a roda!!!!!!!

Uma outra linguagem não acessível, um idioma que recrias diariamente para dar consistência aquilo que só tu vês. Uma pensamento que deriva para tantos lugares e pessoas, sempre a disparar e com nenhuma hipótese de parar.

- Pombo, pombinho, vem aqui à mãe, vem aqui à mãezinha…

Do outro lado, de um lugar que a tua vista não alcança tão facilmente aproxima-se um homem que terá acabado a sua corrida habitual. Faz os exercícios de alongamento, torce e destorce o corpo enquanto tu fitas com invulgar atenção todo aquele aparato muscular. Esboças um pequeno movimento e levantas-te, sentias que tinhas observar com outra proximidade...

- Tou aqui com umas “bexiguezas”, que coisa maldita…

Chegara a hora do momento esperado. Aproximas-te ainda mais, assumes o confronto com o homem da corrida de tal forma, que apenas decides baixar as calças no meio do largo e fazer o que tinhas a fazer – aliviar as tais “bexiguezas”. No semblante do homem da corrida um esgar de nojo e de total constrangimento, no rosto daquela senhora, o sorriso escancarado…

- Olhó MARICAS…Parece que nunca viu !!!!!!!!!!!!!!!

segunda-feira, julho 28, 2008

Mais um bate bola com o Homem

Para ficar sozinho ante o silêncio
O que fazer quando o vazio se impõe assim,
dizei-me a gritar
por favor
O corropio afectivo deixa-me atordoado
Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio
Obedeço-lhe a viver, esponteneamente,
como quem abre os olhos e vê,
sol e flores e árvores e montes
Volto a ti, aos 30 anos
entrego o meu corpo, os meus interstícios
voluntaria ou involuntariamente
ME DOU
Os hospitais cobrem-se de cinza
Ondas de sombra quebram nas esquinas
O lado sombra
resgata-se a doer
com nervo e muito sangue
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo
Juntam-se as pontas soltas
que me fazem e me cumprem
Urge dar voz...

quinta-feira, julho 10, 2008

A Saga

"...Sacudir dos meus passos a poeira do desencontro..."
Sophia Mello Breyner

terça-feira, maio 06, 2008

Café Mueller




Sou este corpo
em definitivo mergulho pela vida

SOU PINA BAUSCH

segunda-feira, maio 05, 2008

A meias com DRUMMOND...

Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros vizinhos
A linguagem sobe escadas, do mais moço
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
Ao mísero caçula


Somos cinco, Sofia, Marta, Tiago, Diogo, Ricardo.
Comunicação de diferentes sentidos, a fluir com muitos ritmos
O sexo em alternância, 3 rapazolas e 2 moçoilas
Palavras saltitonas, pujantes na cadência que assumem
Baleia, padreco, cascavel, gostosa, metralhas.
Tudo isso?

São seis ou seiscentas
Distâncias que se cruzam, se dilatam
No gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
Os mesmos copos,
O mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?


Quarto-camarata, camas em dois andares,
O wonderbra na silhueta em poster gigante,
O código de comunicação entre os univitelinos
Um buraco que espreita para a outra divisão
Manas meninas-moças a explodirem em plena adolescência
Bruce Lee na televisão da sala, esperava-se a qualquer momento
Tortura de cueca…

São estranhos, próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.


Será que o indevassável cresceu entre nós?
Quando a (minha ) igreja construiu muros de suposta sapiência. Talvez
O “santinho do pau oco” a invejar a vida dos metralhas. Fugir aos cânones.
A Brasileira a provocar muita urticária na mana roliça.
Os nossos limites, os seus sofisticados sistemas de sobrevivência…

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
Vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?


Voltar ao embondeiro, encostar a cabeça
Bambolear uniforme, sentir a ausência do verbo
Canção de embalar,
Adormeço. Seguro. Leve.

quinta-feira, abril 10, 2008

Um carro de SONHO...






sexta-feira, março 28, 2008

CCB, meninos, meninas, senhores, senhoras. Poesia



Aproximação à forma poética



as estrelas estão paradas. Parvas
Os gatos comem moscas cheias de histórias.
Toda a gente sabe



Folhas esparsas, farrapos de ideias
voo de flamingo, casca de sapato



Árvore dependuradas pelas viagens
Felismino, Albertina e Viriato.Nomes

sábado, março 22, 2008

Daqui para a frente

Muitas árvores, relva fresca e muito molhada, minhocas, joaninhas, carreiros de formigas, covas e lugares traiçoeiros, bola de futebol à menina (da barbie), guelas à séria – os especiais e os reles - , um menino mais crescido e uma menina a crescer…

- Eu sou mais interior, sabias, sabias. Sou mais interior!

E a casa na árvore? Repara, tem várias tábuas lá em cima, outros pedaços de madeira a fazer de escadas, e um grande bocado de corda grossa, provavelmente, para descer. É uma pena estrar destruída. Se tivesses uma casa destas…

- Eu tenho um lugar destes. É o meu lugar secreto, só vou lá com as minhas melhores amigas

E o que fazes lá? Brincas com as tuas amigas como brincas comigo, ou vais dormir de olhos abertos, ou vão para lá esconder os vossos sonhos e segredos?? E não me disseste como é, se é numa árvore, se precisamos de uma senha de acesso e um mapa para lá chegar??

- Que parvoíce, claro que não. Nada disso. Aquele é o meu espaço interior, reservado apenas aquilo que eu sou, percebes?

Não, eu sou mais exterior. Sinto-me confortável na sujidade, no acessório, no barulho e no néon. Gosto mesmo do pisca-pisca e daquele bulício nas ruas, gente a falar de qualquer coisa. A maralha e o caos são mais confortáveis.

- Gosto mais de dentro, gosto mais de estar dentro. Cá com as minhas ideias

E agora? Vou-me embora, os nossos pés molhados de terra húmida, o teu caminho vai-te levar para onde??? O que mais queres? O que é que desejas agora mesmo? O que é que farias se tivesses todo o poder do mundo?? Todo, todo !!!!!

- Agora sigo sozinha. Vou crescer mais um bocadinho, não achas???

A noite branca

Não sei como te chamas. Já procurei no catálogo das plantas exóticas, ontem mesmo, dei a volta à minha enciclopédia de espécies raras, e tu simplesmente não encaixas. Uma outra natureza. Cravas as raízes na multidão e soltas silenciosos esgares…

- A noite, esse poço interminável. Como cavar mais fundo??

Várias mantas e outros trajes grosseiros compõem a forma como te apresentas, como se quisesses esconder o teu porte imperial, um passado que se advinha na liderança, na congeminação da mudança, no limiar de uma outra forma de estar…

- A noite, porquê tanta tormenta, quando acabam todas estas dúvidas?

És árvore-guardiã, descobri. A tua expressividade, ou talvez, a forma como se conjugam em ti, - olhar e contracção do músculo facial - , incomodam pelos contornos não humanos. Não és homem, és espectro, és vaga. Continuas a tentar soprar algo pouco tangível…

- A noite dispersa-me, não me permite o contacto, retirou-me a expressão!

Não és condição humana, não és. Ocorre-me a palavra vertiginoso quando te vejo, quando o teu estado de absoluta imobilidade me interpela, com a seguinte proposta…abismo, precipício, irreversível mergulho…

- Mortais traunseuntes à luz do dia, elementos acessórios da minha noite.

domingo, março 09, 2008

Vida dupla

Sempre a fazer merda nos arrebaldes do Miguel Bombarda. Você sabe, o hospital. Eu, o meu irmão,
e a minha santa mãezinha que Deus lhe valhe...

- Ó Alfredo, Albino, onde é que vocês estão???? Desgraçados...

Estávamos em cima de um muro pejado de vidros. Ainda hoje desconheço como fazíamos aquilo. Mas, o Sr.Ramiro ia para dentro e nós - ZÁS-PÁS-TRÁS - logo ao pé-da-laranjeira, fazer o que tinha que ser feito. Gamar laranjas. Enchia o bandulho aqueles macacos da oficina. Vida de aprendiz, muita graxa espalhada.

- Ó Alfredo, porra, vadio dum cabrão!!!

Parece que ainda a ouço, ó Sr.Ricardo. Com 10 anos já andavámos nós a puxar carroça com ferro velho, e o Albino a iniciar-se na Oficina. Só o via a carregar ferramentas mais pesadas do que ele, o corpo todo vergado ao peso de um martelo. Eu punha-me sempre à coca a ver o que é que sobrava. Passavam os malucos e eu berrava...

- Ó maluco, ó maluco, volta para a prisão!!!

A noite aproximava-se, nós na fila da sopa dos pobres. A minha mãe de cabeça baixa erguia uma tijela, e de baixo, a uma outra altura, nós conseguíamos ver com clareza tudo o que poderíamos esperar para enganar a fome. Muita fome, muita fome, Sr.Ricardo. Você não sabe o que é isso.

- Não, não sei meu bom amigo. Não sei o que é sentir verdadeiramente o VAZIO no estômago. Não sei.

Foi um golpe de falcão. Comprámos esta espelunca depois de muitos anos a labutar a sério. Uma pessoa morre de tanta labuta, sr. Ricardo. De sol a sol, sem descansos para a mulher, copos e os miúdos. Foi labutar e padecer. Muito sinceramente, nunca fui homem de andar pelo parque mayer ou nas meninas coristas.
Queria estudar, um dia disse a mim próprio...

- Ó Alfredo, podias ir tirar um curso de contabilidade. Tens a cabeça ainda fresca para essas coisas!!!

Foi assim que me tornei contabilista à noite. Chelas inteiro vem bater-me à oficina por alturas de IRS. Digo-lhe do coração, que você sabe que não sou homem de mentir, em Abril ou Maio, tenho aqui mais gente a tentar safar-se ao fisco, do que a querer passar o respectivo automóvel na inspeccção. Diria que é uma questão de prioridades. Tudo na vida, é uma questão de escolha.
Agora ocorreu-me...

- Por acaso, o Sr. Ricardo, já fez a declaração ????

Não, pois bem, se quiser já sabe que pode contar com o Alfredo. Você sabe que já o safei muita vez.

- No mato, é que safei muitos. Em Angola, salvei muitos amigos. Muitos!!!

Volta e meia vem-me a guerra à cabeça. Porra, um gajo saía para o mato, e tinha licença para matar. Muitas vezes ia com a magana para o mato, mas nunca abandonava a coronha, não fosse o diabo pintar feio. Qualquer coisa que mexia, eu, balázio nos cornos. Limpei vários assim. Várias dezenas...

- Ó Alfredo, vai trabalhar a sério. Isso de contar histórias ao Sr.Ricardo chega. Toda a gente sabe que tu nunca saíste do quartel...durante a guerra!!!!!

Aturo as malcriações deste gajo há mais de 40 anos. Porra, já não podemos voltar ao tempo de suposto heroísmo, que vem logo este pulha a lembrar-me que hoje se olhar para baixo, não consigo ver. Dramático, não conseguir ver...apenas a protuberante barriguinha...apenas...

- Há que apreciar um bom OUVIDOR de histórias. O Sr.Ricardo põe-se mesmo a jeito!!!