quinta-feira, abril 10, 2008
sexta-feira, março 28, 2008
CCB, meninos, meninas, senhores, senhoras. Poesia
sábado, março 22, 2008
Daqui para a frente
Muitas árvores, relva fresca e muito molhada, minhocas, joaninhas, carreiros de formigas, covas e lugares traiçoeiros, bola de futebol à menina (da barbie), guelas à séria – os especiais e os reles - , um menino mais crescido e uma menina a crescer…
- Eu sou mais interior, sabias, sabias. Sou mais interior!
E a casa na árvore? Repara, tem várias tábuas lá em cima, outros pedaços de madeira a fazer de escadas, e um grande bocado de corda grossa, provavelmente, para descer. É uma pena estrar destruída. Se tivesses uma casa destas…
- Eu tenho um lugar destes. É o meu lugar secreto, só vou lá com as minhas melhores amigas
E o que fazes lá? Brincas com as tuas amigas como brincas comigo, ou vais dormir de olhos abertos, ou vão para lá esconder os vossos sonhos e segredos?? E não me disseste como é, se é numa árvore, se precisamos de uma senha de acesso e um mapa para lá chegar??
- Que parvoíce, claro que não. Nada disso. Aquele é o meu espaço interior, reservado apenas aquilo que eu sou, percebes?
Não, eu sou mais exterior. Sinto-me confortável na sujidade, no acessório, no barulho e no néon. Gosto mesmo do pisca-pisca e daquele bulício nas ruas, gente a falar de qualquer coisa. A maralha e o caos são mais confortáveis.
- Gosto mais de dentro, gosto mais de estar dentro. Cá com as minhas ideias
E agora? Vou-me embora, os nossos pés molhados de terra húmida, o teu caminho vai-te levar para onde??? O que mais queres? O que é que desejas agora mesmo? O que é que farias se tivesses todo o poder do mundo?? Todo, todo !!!!!
- Agora sigo sozinha. Vou crescer mais um bocadinho, não achas???
A noite branca
Não sei como te chamas. Já procurei no catálogo das plantas exóticas, ontem mesmo, dei a volta à minha enciclopédia de espécies raras, e tu simplesmente não encaixas. Uma outra natureza. Cravas as raízes na multidão e soltas silenciosos esgares…
- A noite, esse poço interminável. Como cavar mais fundo??
Várias mantas e outros trajes grosseiros compõem a forma como te apresentas, como se quisesses esconder o teu porte imperial, um passado que se advinha na liderança, na congeminação da mudança, no limiar de uma outra forma de estar…
- A noite, porquê tanta tormenta, quando acabam todas estas dúvidas?
És árvore-guardiã, descobri. A tua expressividade, ou talvez, a forma como se conjugam em ti, - olhar e contracção do músculo facial - , incomodam pelos contornos não humanos. Não és homem, és espectro, és vaga. Continuas a tentar soprar algo pouco tangível…
- A noite dispersa-me, não me permite o contacto, retirou-me a expressão!
Não és condição humana, não és. Ocorre-me a palavra vertiginoso quando te vejo, quando o teu estado de absoluta imobilidade me interpela, com a seguinte proposta…abismo, precipício, irreversível mergulho…
- Mortais traunseuntes à luz do dia, elementos acessórios da minha noite.
domingo, março 09, 2008
Vida dupla
Sempre a fazer merda nos arrebaldes do Miguel Bombarda. Você sabe, o hospital. Eu, o meu irmão,
e a minha santa mãezinha que Deus lhe valhe...
- Ó Alfredo, Albino, onde é que vocês estão???? Desgraçados...
Estávamos em cima de um muro pejado de vidros. Ainda hoje desconheço como fazíamos aquilo. Mas, o Sr.Ramiro ia para dentro e nós - ZÁS-PÁS-TRÁS - logo ao pé-da-laranjeira, fazer o que tinha que ser feito. Gamar laranjas. Enchia o bandulho aqueles macacos da oficina. Vida de aprendiz, muita graxa espalhada.
- Ó Alfredo, porra, vadio dum cabrão!!!
Parece que ainda a ouço, ó Sr.Ricardo. Com 10 anos já andavámos nós a puxar carroça com ferro velho, e o Albino a iniciar-se na Oficina. Só o via a carregar ferramentas mais pesadas do que ele, o corpo todo vergado ao peso de um martelo. Eu punha-me sempre à coca a ver o que é que sobrava. Passavam os malucos e eu berrava...
- Ó maluco, ó maluco, volta para a prisão!!!
A noite aproximava-se, nós na fila da sopa dos pobres. A minha mãe de cabeça baixa erguia uma tijela, e de baixo, a uma outra altura, nós conseguíamos ver com clareza tudo o que poderíamos esperar para enganar a fome. Muita fome, muita fome, Sr.Ricardo. Você não sabe o que é isso.
- Não, não sei meu bom amigo. Não sei o que é sentir verdadeiramente o VAZIO no estômago. Não sei.
Foi um golpe de falcão. Comprámos esta espelunca depois de muitos anos a labutar a sério. Uma pessoa morre de tanta labuta, sr. Ricardo. De sol a sol, sem descansos para a mulher, copos e os miúdos. Foi labutar e padecer. Muito sinceramente, nunca fui homem de andar pelo parque mayer ou nas meninas coristas.
Queria estudar, um dia disse a mim próprio...
- Ó Alfredo, podias ir tirar um curso de contabilidade. Tens a cabeça ainda fresca para essas coisas!!!
Foi assim que me tornei contabilista à noite. Chelas inteiro vem bater-me à oficina por alturas de IRS. Digo-lhe do coração, que você sabe que não sou homem de mentir, em Abril ou Maio, tenho aqui mais gente a tentar safar-se ao fisco, do que a querer passar o respectivo automóvel na inspeccção. Diria que é uma questão de prioridades. Tudo na vida, é uma questão de escolha.
Agora ocorreu-me...
- Por acaso, o Sr. Ricardo, já fez a declaração ????
Não, pois bem, se quiser já sabe que pode contar com o Alfredo. Você sabe que já o safei muita vez.
- No mato, é que safei muitos. Em Angola, salvei muitos amigos. Muitos!!!
Volta e meia vem-me a guerra à cabeça. Porra, um gajo saía para o mato, e tinha licença para matar. Muitas vezes ia com a magana para o mato, mas nunca abandonava a coronha, não fosse o diabo pintar feio. Qualquer coisa que mexia, eu, balázio nos cornos. Limpei vários assim. Várias dezenas...
- Ó Alfredo, vai trabalhar a sério. Isso de contar histórias ao Sr.Ricardo chega. Toda a gente sabe que tu nunca saíste do quartel...durante a guerra!!!!!
Aturo as malcriações deste gajo há mais de 40 anos. Porra, já não podemos voltar ao tempo de suposto heroísmo, que vem logo este pulha a lembrar-me que hoje se olhar para baixo, não consigo ver. Dramático, não conseguir ver...apenas a protuberante barriguinha...apenas...
- Há que apreciar um bom OUVIDOR de histórias. O Sr.Ricardo põe-se mesmo a jeito!!!
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Le ballon rouge

Quero um balão vermelho a perseguir-me, já disse. Não volto atrás, o que está dito está dito, assinado, ponto final.
Balão vermelho em Alfama
Não me venham cá com anjos da guarda, seguranças, nossa senhoras, videovigilância, medidas de precaução especial ...o diabo a sete, quero mesmo um balão vermelho.
Balão vermelho agarrado à barcaça transtejo
Um balão vermelho a seguir-me por todo o lado, qual cão guia, ou perdigueiro fiel de caça. Urge estar perto, ao lado, em cima, em baixo, quando estou a dormir ou mesmo a pensar. A maior parte do meu tempo. E o balão vermelho...
Balão vermelho a esfumaçar na chaminé Quimigal
Chego a casa, o dia de labor intenso na parte mais baixa das costas. Na janela que espreita uma Oliveira, eis que aparece o balão vermelho. Está presente, é só isso que lhe exigo. Estar, apenas.
Balão vermelho cheio de rebuçados e farinha
O caminho faz-se pelas vielas históricas de uma certa cidade. Varinas e criançada a fugir à clausura do espaço interior, uma certa garoa a anunciar-se, olho para cima de relance e sinto o voo do balão vermelho. Salta de telhado em telhado, de história em história, de segredo em segredo.
Balão vermelho a bater furiosamente na parede
Parece-me que é chegada à hora. Estamos sempre em viagem, os objectos da nossa inquietação vão mudando, o balão vermelho sabe há muito ao que veio, sabe há muito o que é suposto fazer na sua viagem. Não plana ou flutua, assume o voo picado. Não, não se trata de um predador. É apenas o balão vermelho.
Balão vermelho a espreitar pelo buraco da fechadura
Um pouco tímido e envergonhado, permanece na errância do seu comportamento infantil. Por ora, apetece-lhe um pouco de intimidade feminina. Quer fazer parte...
segunda-feira, fevereiro 11, 2008
Uma forma de dizer ADEUS...

Não gostava da sala de aula, do silêncio e concentração que o professor exigia. Gostava do espaço-recreio, de subverter no fumo do cigarro, de tecer os amores e desamores da minha turbulenta adolescência. Não estava propriamente interessada na aprendizagem, o espelho começara a reflectir uma beleza que eu deixaria de reconhecer. Aquela não era eu.
- Estás-me a ouvir, Ana ? Será que me estás a ouvir?
Não me recordo certamente da primeira vez que te vi. Talvez tenha esquecido. Sei que conheci a inveja em ti. Eras linda, uma excelente aluna, todos gostavam de ti, eras POPULAR. Eu era apenas a tua amiga. Muito passado deixou de existir, mas lembro-me que me sentia mais segura, mais estável ao teu lado. Trouxeste alguma ordem à minha vida. Ordem e estrutura.
- Não sei o que dizer!
Estávamos em pólos opostos. Eu, faladora, espalhafatosa, fazia questão de dizer a tudo e todos que estava presente. Tu, calma, inibida, tornavas-te presente gradualmente, sem grandes alaridos. Eu e tu, uma amizade imprevista, um vínculo improvável.
- Tinha tanta coisa para te dizer…
Fiz-me na rua, nos cento e sessentas ou na actual Rua Palmira Bastos. O lote 166 e a rua feita de putos imberbes e meninas em pudica adolescência, delimitavam o meu espaço vital. Tu vinhas de Moscavide, terra que ostenta uma profunda tristeza, no semblante dos seus edifícios. Cinzenta, ogre, suja. O teu sorriso escondia a mesma tonalidade.
- Deixei os meus filhos com a minha sogra. Já sabes, não param de fazer merda.
Em casa, o meu pai apresentava-se em soluços, sempre de passagem. De vez em quando parava por Portugal. A minha mãe esfalfava-se para levar a sua prole a bom porto. Eu não lhe facilitava a vida, ora o excesso de peso, ora a escola, ora o comportamento destravado. Às vezes também sentia o teu olhar de reprovação, um olhar terno, compreensivo, um olhar irmão.
- Será que tu me ouves? Tenho a certeza que sim…
Crescemos com itinerários diferentes. Peguei ao trabalho cedo, peregrinei ainda por alguns cursos, mas sentia a urgência do trabalho. A restauração sob diversas formas desenhou o que tem sido a minha vida profissional. O teu itinerário recente dava-me conta de alguém com formação académica sólida a errar numa dependência bancária. Muitas contas, créditos e débitos, e o sentimento de não identificação que saltava à vista de todos. Não gostavas de sorrir para o senhor cliente.
- Não sei o que vai ser da minha vida. Sabes como é…a correria de sempre…
Semanalmente, dividíamos as nossas angústias da vida adulta. Os dislates do trabalho, o crescimento sinuoso dos meus filhos, a tua relação conjugal, planos de viagens, novelas e filmes, financiamentos a acumular, os gajos bons e os assim-assim, o desconforto permanente com o corpo, a doença que começara a aparecer. Muito devagar.
- O meu irmão também está aqui. Veio comigo, eu não consegui vir sozinha…
Muito devagar. FILHA DA PUTA. FILHA DA PUTA. FILHA DA PUTA. Apareceu sob a forma de alergia, e foi assumindo diferentes diagnósticos. O corpo lentamente começara a mudar, lentamente deixaste de te sentir mulher. As chagas queimavam em lume brando, e o meu sentimento de impotência crescia a ritmo de galope. Uma raiva profunda de não te sentir acompanhada, cuidada. Por onde andou o teu marido, por onde andou o senhor pavão?
- Força, minha querida. Tu és forte!! Sei que vais superar tudo isso…
Senti o fim. A tua falsa anuência com a cabeça segredava-me isso. Foi a nossa despedida. A nossa última grande conversa. Não estávamos em minha casa, estávamos numa Unidade de Cuidados Intensivos. Volto a essa conversa em todos os instantes da minha vida e dou-me conta que me ensinaste a olhar mais uma vez para o futuro. Os meus filhos. O meu amor. A minha família. Olhar para a frente.
- Estou, sempre estarei.
domingo, janeiro 20, 2008
Conto de Natal - Estacionamento
Ela,
o coração a bater esperanças.
Ele,
o pensamento a fazer corte aquele dia.
Ela,
Netos, filhos, dinheiro, mãe. Agora, um conjunto desinteressante.
Ele,
projectos em papel vegetal, ferramentas tridimensionais. Agora, outro conjunto desinteressante.
Ela,
corpo projectado para o ataque. Avançar, não esperar!
Ele,
corpo pensado no jogo, para o jogo. Avançar, esperar, avançar, esperar!
Ela,
redondel da Portela. O centro, mais precisamente o estacionamento. No horizonte próximo, a mota e o rabo de cavalo!
ACENO EFUSIVO
Ele,
Show-time. Assumir a pose e calçar a mota. Impressionar!
ACENO EFUSIVO
Ela,
Nasce, irrompe, explode. Natal...
Ele,
Nasce, irrompe, explode. Natal...
sexta-feira, janeiro 18, 2008
A Caixa preta...
10:25
Uma longa espera se avizinhara. Rapaz de poucos anos, umas reminescências capilares pelo rosto, a irrequietude que cansa na presença dos outros. A estreia seria aquela noite. Mais precisamente às 22:00
12:19
Trabalhador, respigador de mãos cheias, vai exercendo o seu ofício na outra margem, na cidade de sonho e futuro. Dizem. Ele não diz nada, só fala com os seus interstícios. Pergunta-se como, como??
14:50
A frase que desarma e clama pelo regresso ao real - Você está muito estranho hoje, parece que deixou de estar comigo - Não, não, está apenas de uma forma diferente. Tem vontade de dizer, todos temos os nossos dias. Mas não diz. Há dias menos bons para a respiga, pensa simplesmente.
15:50
O Palco, o duelo. Alguma coisa nele desejava comunicar, alguma coisa naquele tablado negro desejava não comunicar. Tratava-se de um palco de guerra, uma situação limite. Será que vai para o front ou enfia-se nas trincheiras? Não sabe responder, não é hora para grandes elaborações.
18:38
Precipitam-se as contracções e a impossibilidade de estar no plano real. Saem monossílabos, o som do trombone estala por dentro. Grave, muito grave é esse som que não o deixa serenar. Todo o texto passa em slide-show à sua frente. Vezes e vezes e vezes.
20:13
Alguém fala em comer. Nada entra, só pode sair. Não é hora de pensar em necessidades básicas. Alimentação, eliminação, evacuações, três movimentos primários da vida, deixaram simplesmente de existir. Só tinha uma única necessidade.
21:49
O Grupo em roda, impossível dar forma aquele verbo. Impossível. Apenas tremer e assumir o descontrolo. Estava descontrolado, as pernas pareciam sofrer de alguma enfermidade. A certeza que na próxima hora alguma coisa iria acontecer com a absoluta ausência do seu controlo. Deixa o corpo tremer, parecia dizer. Deixa o corpo tremer. Deixa, vá lá...


