domingo, janeiro 25, 2009

Pontapé na crise...

Que se lixem as palavras catastrofistas...
Fiquemos com Nina Simone...

segunda-feira, janeiro 05, 2009

O nosso primeiro amor foi sempre uma grande p...

A bela do bairro

Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor

Fernando Assis Pacheco - A musa irregular

domingo, janeiro 04, 2009

O cimento, a bola e o calhau




"O Eusébio marca livres de trinta metros, o Artur Jorge chuta em moinho, o Dinis faz fintas à bandeirola de canto, MAS EU FUI O MAIOR CRAQUE DA RUA GUERRA JUNQUEIRO E ESTÁ PARA NASCER UM SUCESSOR DIGNO DESSE TÍTULO."

(...)

«E se o miúdo jogasse à baliza?»
Vi-me subitamente presenteado com um boné e dois lenços de assoar para as joelheiras. A matózia era mais velha, nove, dez anos, e num relance percebi que o meu futuro desportivo, assaz brilhante nas épocas seguintes, poderia nem sequer começar. Ora como isto de futebóis mais vale um mergulho para o fotográfo do que dois meses no banco dos suplentes, o craque enfiou o boné bem enfiado na tola, arreganhou o pior dos sorrisos (grr!) e dispôs-se a gravar o nome completo sobre o cimento do quintal. É claro que a minha equipa ganhou: nem seria de outro modo, pois logo à primeira investida do Tó Mané Magalhães esfola gatos mata cães fui-me a ele, encostei delicamente a biqueira do sapato esquerdo ao tornozelo do artista, fiz força (uma força «do catarino», como então se dizia) e apliquei-lhe o acelerador com algumas ganas e sobeja intenção de brilhar. O Tó Mané desandou para escadas agarrado ao tornozelo. Perguntaram-lhe se queria que trouxessem a bilha de água.
«Quero pois», urrou. «Quero a bilha e quero um calhau para partiros focinhos a esse gajo do cento e dezoito!»

Fernando Assis Pacheco, Memórias de um Craque

segunda-feira, dezembro 22, 2008

"...Os guarda-redes também morrem ao domingo..."

Por aqui começámos a ficar presos...

"...Teve uma infância estranha, disse Austin. Em última análise - todas as infâncias o são - disse Mister Deluxe. Molero diz, disse Austin, que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então um cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva..."
(páginas iniciais de O que diz Molero, Dinis Machado)

Por aqui havemos de estar nos próximos meses...

"...Vou passar uma vida toda a entender o que é isto, o teatro..."

Quando se inscrevem tantas incertezas na matéria real que nos ocupa, eis que surge a primeira centelha....

Urge dar voz a dois monstros que em pujante pretensão, propomos relativa cumplicidade...

Apenas porque o texto-palavra nos toca de forma particular, numa espécie de fado vadio de um certo Portugal, de um conjunto de referências estéticas e artísticas que comungamos inteiramente...

Torna-se assim em cousa pública, o sonho de dar vida a um espetáculo que paira as nossas cabeças há tempo bastante...

Arrisca-se o primeiro título "...Em que idade do coração se apaga o sorriso dos homens" (Al Berto)

terça-feira, agosto 05, 2008

O elemento escatológico

O dia inteiro. Sentas no banco ao lado do último degrau da escadaria que vai até à igreja, vens suja, tão descuidada. Uma feiúra que denuncia a coisa doença. Murmuras…

- 3 pedras, mais 56 pedrinhas, orquídeas são às dúzias. Ó Joaquim…

O teu património organiza-se em sacos de plástico. Sacos de diferentes supermercados e lojas servem o propósito de guardar diferentes fios e cordas, revistas Maria, uma lata de salsicha aberta, algumas agulhas de tricot, pacotes de bolhacha de aveia já encetados, cabelos de bonecas…

- totoloto, euromilhões, olha a roda, olha a lotaria. Sexta anda a roda!!!!!!!

Uma outra linguagem não acessível, um idioma que recrias diariamente para dar consistência aquilo que só tu vês. Uma pensamento que deriva para tantos lugares e pessoas, sempre a disparar e com nenhuma hipótese de parar.

- Pombo, pombinho, vem aqui à mãe, vem aqui à mãezinha…

Do outro lado, de um lugar que a tua vista não alcança tão facilmente aproxima-se um homem que terá acabado a sua corrida habitual. Faz os exercícios de alongamento, torce e destorce o corpo enquanto tu fitas com invulgar atenção todo aquele aparato muscular. Esboças um pequeno movimento e levantas-te, sentias que tinhas observar com outra proximidade...

- Tou aqui com umas “bexiguezas”, que coisa maldita…

Chegara a hora do momento esperado. Aproximas-te ainda mais, assumes o confronto com o homem da corrida de tal forma, que apenas decides baixar as calças no meio do largo e fazer o que tinhas a fazer – aliviar as tais “bexiguezas”. No semblante do homem da corrida um esgar de nojo e de total constrangimento, no rosto daquela senhora, o sorriso escancarado…

- Olhó MARICAS…Parece que nunca viu !!!!!!!!!!!!!!!

segunda-feira, julho 28, 2008

Mais um bate bola com o Homem

Para ficar sozinho ante o silêncio
O que fazer quando o vazio se impõe assim,
dizei-me a gritar
por favor
O corropio afectivo deixa-me atordoado
Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio
Obedeço-lhe a viver, esponteneamente,
como quem abre os olhos e vê,
sol e flores e árvores e montes
Volto a ti, aos 30 anos
entrego o meu corpo, os meus interstícios
voluntaria ou involuntariamente
ME DOU
Os hospitais cobrem-se de cinza
Ondas de sombra quebram nas esquinas
O lado sombra
resgata-se a doer
com nervo e muito sangue
à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo
Juntam-se as pontas soltas
que me fazem e me cumprem
Urge dar voz...

quinta-feira, julho 10, 2008

A Saga

"...Sacudir dos meus passos a poeira do desencontro..."
Sophia Mello Breyner

terça-feira, maio 06, 2008

Café Mueller




Sou este corpo
em definitivo mergulho pela vida

SOU PINA BAUSCH

segunda-feira, maio 05, 2008

A meias com DRUMMOND...

Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros vizinhos
A linguagem sobe escadas, do mais moço
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
Ao mísero caçula


Somos cinco, Sofia, Marta, Tiago, Diogo, Ricardo.
Comunicação de diferentes sentidos, a fluir com muitos ritmos
O sexo em alternância, 3 rapazolas e 2 moçoilas
Palavras saltitonas, pujantes na cadência que assumem
Baleia, padreco, cascavel, gostosa, metralhas.
Tudo isso?

São seis ou seiscentas
Distâncias que se cruzam, se dilatam
No gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
Os mesmos copos,
O mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?


Quarto-camarata, camas em dois andares,
O wonderbra na silhueta em poster gigante,
O código de comunicação entre os univitelinos
Um buraco que espreita para a outra divisão
Manas meninas-moças a explodirem em plena adolescência
Bruce Lee na televisão da sala, esperava-se a qualquer momento
Tortura de cueca…

São estranhos, próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.


Será que o indevassável cresceu entre nós?
Quando a (minha ) igreja construiu muros de suposta sapiência. Talvez
O “santinho do pau oco” a invejar a vida dos metralhas. Fugir aos cânones.
A Brasileira a provocar muita urticária na mana roliça.
Os nossos limites, os seus sofisticados sistemas de sobrevivência…

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
Vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?


Voltar ao embondeiro, encostar a cabeça
Bambolear uniforme, sentir a ausência do verbo
Canção de embalar,
Adormeço. Seguro. Leve.