Pontapé na crise...
Que se lixem as palavras catastrofistas...
Fiquemos com Nina Simone...
Sem playlist, sem playback, sem playbook
Por aqui começámos a ficar presos...
"...Teve uma infância estranha, disse Austin. Em última análise - todas as infâncias o são - disse Mister Deluxe. Molero diz, disse Austin, que a infância do rapaz foi particularmente estranha, condicionada por questões de ambiente que fizeram dele, simultaneamente, actor e espectador do seu próprio crescimento, lá dentro e um pouco solto, preso ao que o rodeava e desviado, como se um elástico o afastasse do corpo que transportava e, muitas vezes, o projectasse brutalmente contra a realidade desse mesmo corpo, e havia então um cachoar violento do que era e a espuma do que poderia ser, a asa tenra batendo à chuva..."
(páginas iniciais de O que diz Molero, Dinis Machado)
Por aqui havemos de estar nos próximos meses...
Quando se inscrevem tantas incertezas na matéria real que nos ocupa, eis que surge a primeira centelha....
Urge dar voz a dois monstros que em pujante pretensão, propomos relativa cumplicidade...
Apenas porque o texto-palavra nos toca de forma particular, numa espécie de fado vadio de um certo Portugal, de um conjunto de referências estéticas e artísticas que comungamos inteiramente...
Torna-se assim em cousa pública, o sonho de dar vida a um espetáculo que paira as nossas cabeças há tempo bastante...
Arrisca-se o primeiro título "...Em que idade do coração se apaga o sorriso dos homens" (Al Berto)
O dia inteiro. Sentas no banco ao lado do último degrau da escadaria que vai até à igreja, vens suja, tão descuidada. Uma feiúra que denuncia a coisa doença. Murmuras…
- 3 pedras, mais 56 pedrinhas, orquídeas são às dúzias. Ó Joaquim…
O teu património organiza-se em sacos de plástico. Sacos de diferentes supermercados e lojas servem o propósito de guardar diferentes fios e cordas, revistas Maria, uma lata de salsicha aberta, algumas agulhas de tricot, pacotes de bolhacha de aveia já encetados, cabelos de bonecas…
- totoloto, euromilhões, olha a roda, olha a lotaria. Sexta anda a roda!!!!!!!
Uma outra linguagem não acessível, um idioma que recrias diariamente para dar consistência aquilo que só tu vês. Uma pensamento que deriva para tantos lugares e pessoas, sempre a disparar e com nenhuma hipótese de parar.
- Pombo, pombinho, vem aqui à mãe, vem aqui à mãezinha…
Do outro lado, de um lugar que a tua vista não alcança tão facilmente aproxima-se um homem que terá acabado a sua corrida habitual. Faz os exercícios de alongamento, torce e destorce o corpo enquanto tu fitas com invulgar atenção todo aquele aparato muscular. Esboças um pequeno movimento e levantas-te, sentias que tinhas observar com outra proximidade...
- Tou aqui com umas “bexiguezas”, que coisa maldita…
Chegara a hora do momento esperado. Aproximas-te ainda mais, assumes o confronto com o homem da corrida de tal forma, que apenas decides baixar as calças no meio do largo e fazer o que tinhas a fazer – aliviar as tais “bexiguezas”. No semblante do homem da corrida um esgar de nojo e de total constrangimento, no rosto daquela senhora, o sorriso escancarado…
- Olhó MARICAS…Parece que nunca viu !!!!!!!!!!!!!!!
Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros vizinhos
A linguagem sobe escadas, do mais moço
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
Ao mísero caçula
Somos cinco, Sofia, Marta, Tiago, Diogo, Ricardo.
Comunicação de diferentes sentidos, a fluir com muitos ritmos
O sexo em alternância, 3 rapazolas e 2 moçoilas
Palavras saltitonas, pujantes na cadência que assumem
Baleia, padreco, cascavel, gostosa, metralhas.
Tudo isso?
São seis ou seiscentas
Distâncias que se cruzam, se dilatam
No gesto, no calar, no pensamento?
Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
Os mesmos copos,
O mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?
Quarto-camarata, camas em dois andares,
O wonderbra na silhueta em poster gigante,
O código de comunicação entre os univitelinos
Um buraco que espreita para a outra divisão
Manas meninas-moças a explodirem em plena adolescência
Bruce Lee na televisão da sala, esperava-se a qualquer momento
Tortura de cueca…
São estranhos, próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.
Será que o indevassável cresceu entre nós?
Quando a (minha ) igreja construiu muros de suposta sapiência. Talvez
O “santinho do pau oco” a invejar a vida dos metralhas. Fugir aos cânones.
A Brasileira a provocar muita urticária na mana roliça.
Os nossos limites, os seus sofisticados sistemas de sobrevivência…
Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde, com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
Vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?
Voltar ao embondeiro, encostar a cabeça
Bambolear uniforme, sentir a ausência do verbo
Canção de embalar,
Adormeço. Seguro. Leve.
Desengaçar a alegria
do chato amável mundo
Fernando Assis Pacheco

