terça-feira, outubro 24, 2006

GOIABADA CASCÃO

Lá ia Conceição, moleque doce de leite, short azul com bainhas, cabelo da hora numa pose de índio playmobil, camiseta do colégio Peixoto, dedo grande inteiro na boca.

Dedão na boca, perna curta entalada pelo short azul de bainhas, Conceição pensava na ladeira que se precipitava naquele instante. Dava para sentir o drama do menino querendo chegar lá no Zacarias, onde moravam seus amigos Cebolinha, Mónica e Cascão, sim, o Cascão....

Quiosque do Zacarias, logo Conceição, Mamãe me compra o Globinho, mamãe indiferente, Conceição de novo, mamãezinha me compra o Globinho!!!!!

- NÃO LIGA NÃO, ZACARIAS!!! Agora tá nessa de ler jornal. Conceição não desistia, mamãe, ma...mãe, me compra, vai, me compra o Globinho, tem Mónica, Cebolinha e Cascão, o meu amigo Cascão, aquele que vai lá em casa. Tá lembrada não??

- VIXE MENINO!!! Larga do meu pé, você tem 4 anos, nem sabe ler direito, e já tá pensando em ler jornal, fazer amizade com Cascão. CONCEIÇÃO AUGUSTO, TOOOOOOME TENTO....

- PUXA O SHORT PARA CIMA, MENINO!!!...Sempre com essa mania de coçar a bunda!!!

Conceição continuava com seu amigo Cascão. Dessa vez, eles tavam sonhando os dois em cima de um pé de laranja lima, feito cavalo de dorsel. Acho que eles estavam com o menino Pedro Bala da Bahia, e o Pedrinho da roça mesmo. Estavam todos bolando como dar um trote daqueles, naquela menina que vive zombando deles, só porque tá na primeira série e tem 7 anos. É, ela mesma, a Bruna. De vez em quando Conceição voltava ao mesmo, mamãe me compra o Globinho!!!

- Short para cima MOLEQUE, não quero mais ver essa bunda!!!

Uma vez mais, Mamãe me compra o Globinho
- Short para cima, CONCEIÇÃO!!!!!!
Guri levado, Conceição não desistia facilmente, Mamãe me compra o Globinho
- Eu vou te dar o Globinho, sabe onde, sabe??? Não me amola a paciência!!!
Entretanto, Conceição voltava ao quintal do Cascão para acertar as contas com Bruna, a marota. Nesse instante, alguém disse para quem quis ouvir. Eu fui um dos que quis ouvir..."Eta menino arretado para ler jornal..."

terça-feira, outubro 17, 2006

Um pouco de Fisiologia

"...A melhor fase da nossa vida é quando estamos a ser fagocitados..."

sexta-feira, outubro 13, 2006

A Paternidade adiada...(3)

Maternidade Alfredo da Costa. Paredes vertiginosas, impossíveis de tanta brancura gasta, bocas aturdidas de cansaço e saturação, a vontade estampada de não fazer mais nada…

Onde é que eu estou? Alguém me diz onde é que eu estou?? Que cama é esta, porque é que estou deitada e sinto tanta dor?? Que coisa horrosa, janelas foscas, lâmpadas sobre bebés, caixas de vidro, muitas mulheres com ar estafado!! Paredes bolorentas, algumas pessoas de branco a passar à minha frente, choro de bebé, porra, mas onde é que eu estou? Não, não, não, não pode ser, é, será? Não, merda, não pode ser?? F..i..lh..o...NÃOOOOO....Na caixinha ao meu lado, tanto pêlo, bochechas gordas, e aquela coisa gusmenta junto ao nariz. Não, não é meu filho, estou aqui por engano. Dói tanto junto ao umbigo, o que se passa?

- Tem um rico menino!

Mas quem és tu? Que é que estás para aí a dizer? Rico menino? Cala-te, Não quero ouvir !!! Quem me dera que estes pensamentos tivessem voz. Cala-te, não é o meu menino. Tenho 13 anos, vivo onde ninguém quer morar, 4ª classe, nunca trabalhei, os meus cotas estão muito longe. Novamente a voz daquele gajo de branco...

- Um rico menino!

O quê? Quer-me tocar? Não, todo este hospital já me tocou, não , nem pensar. A bazar à minha frente, já!!! Ah, quer ver os pontos, pare com isso, não lhe dou o direito. Pare, por favor !!! Porque não consigo dizer-lhe para parar? Vá à sua vidinha, com as outras mãe todas. Ponha-se a andar daqui para fora...
- Um rico menino!

13 anos, não faço ideia de quem terá sido o f.d.p. que me fez este belo serviço. Deitada ao lado destas mulheres, quero voltar para o bairro. Toda a gente a olhar para mim, não sou um ET, parece que as ouço todas, tão novinha, uma menina que devia andar na escola, igualzinha à minha mais velha. Calem-se, já disse !!! Da minha vida eu é que sei, metam-se nas vossas vidinhas ridículas...

- Um rico menino!

Começaste a chorar baixinho, o que é que eu faço? Olho à minha volta, sim, é só copiar o que as outras mulheres fazem. Segurar-te, aiiii, que medo, não, vais-te partir assim, não, pára quieto, pareces o meu boneco julião, ai, ai, ai, ai!!! Ajuda-me, tem paciência, não sei fazer isto, horrível, não sei, MÃAAAAAE. Não sei...

- Um rico menino!

Já ouvi, não precisa de repetir, sim, tá com fome. Preciso de o amamentar!!! Gostava de lhe poder dizer para ficar, por favor, fique aqui, não sei fazer isto. Por favor, ouça os meus pensamentos, por favor, fique aqui!!! Encosto-o junto a mim, sinto o coração dele a bater, tenho que fazer tudo como o gajo de branco me disse. Aproximo o queixo dele, umas pequenas carícias na bochecha, envolvo-o no meu peito............PÁRA, PÁRA, isso é insuportável, pára, não consigo, não consigo, não consigo, dói tanto, dói tanto....Porque é que eu tou a chorar?? Não quero chorar...Meu filho, sim, meu filho !!!!

- Um rico menino!

Um rico menino tem que ter nome, penso eu. Tenho que ligar para o bairro, alguém tem que avisar a minha tia, dizer-lhe que SOU MÃE, parece inacreditável, usar essa palavra para me difinir, para caracterizar essa nova condição que nasceu em mim. Ela vai apanhar um susto, não vai perceber nada, vai achar que é mais uma das minhas brincadeiras. Nunca se viu barriga, como foi isto acontecer??? Boa pergunta, senhor enfermeiro, tenho que lhe dar um nome. Bruno Maurício? Não. Taonan Almeida? Não. Kelvin Thomas? Não. Rivelino dos Santos? Não. Bertoldo António? Não. Qual será o teu nome, meu filho?? Fortunato, sim, vejo-te como Fortunato, tá decidido, serás Fortunato...

- Um rico menino!

Outra vez, filho. Não pode ser, Fortunato, estão todos a dormir aqui. Daqui a pouco, isto passa a ser uma choradeira pegada. Filhinho...schiii...schiiii, vem para pertinho de mim, pronto, pronto, já passou, cólica má, pronto, pronto. Não podes tar com fome, só pode ser mais uma noite cheio da cólicas...Calma, Fortunato, por favor, olha o Pedro já acordou, daqui a nada, acorda o Francisco, a Madalena e aquela menina lá do canto. Vá...schiuu...schiuuu, dorme, meu anjinho, dorme que isso já vai passar....não consigo acalmar o meu próprio filho, que desespero, que aflição....

- Um rico menino!

Sim, pode pegá-lo, sim, tou exausta, estas 3 noites sem pregar olho, toda a gente acordada por causa dele. Tudo bem, pode ir dar uma volta com ele. Vejo-te a sair do quarto, ao colo do enfermeiro, não, não me pode tirar o filho, ainda o ouço a dizer há uns segundos atrás...está exausta mãe, eu vou levá-los por uns instantes...Não, não aceito. Onde é que estás Fortunato?? Onde?? Onde??? Saio do quarto e vejo-te no final deste corredor enorme, a dormir tranquilamente, embalado por uma dengosa melodia. Não, não é o pai, tu sabes bem disso. Não, não é o pai...

terça-feira, outubro 03, 2006

Porquê?

A língua é um local filha da puta. Recordo-me de um almoço de família, década de 80, aquele pato assado do forno da minha mãe (paraíso das minhas largas bochechas presidenciáveis) e o meu tio emigrado no Brasil sentado ao meu lado direito. A conversa começou logo estranha, com aquele sotaque telenovela mas muitos debicéis acima do som da televisão, como se se quisesse fazer ouvir lá do outro lado do Atlântico: “Oh Armanda, este pato está filha da puta! Bom pra xuxu”. Após o choque inicial lá percebi o contexto e nas semanas seguintes não havia frase minha que não envolvesse um filha da puta isto, um filha da puta aquilo… Finalmente a mão pesada do meu pai lá voltou a contextualizar-me no vernáculo deste lado do oceano.
Entendo o fascínio de Caetano Veloso pelas expressões que assumem um cariz distinto fora do meio que nos é familiar: "Acho bonita a maneira como, linguisticamente, os portugueses resolveram a questão do orgasmo. No Brasil, usamos o verbo gozar, como na França. Mas é como se estivesse acabando alguma coisa. Estou-me a vir é reflexivo, ou seja, fala de si próprio. E ainda dá uma idéia de continuidade". Claro que os ditadores do bom do gosto do Público não gostaram e lá deram a sua bofetada intelectual ao orgasmo lusitano do sexagenário baiano: “Ridículo!”. Porquê?


Porquê?
(Caetano Veloso)

Estou-me a vir
Estou-me a vir
Estou-me a vir e tu como é que te tens por dentro?
Porquê não te vens também?
Estou-me a vir
Estou-me a vir
(repetido até à doce exaustão)

sexta-feira, setembro 29, 2006

Motim no 13º Bairro Fiscal

Um senhor de fato azul e pasta castanha em pele entra na repartição das finanças do 13º bairro fiscal de Lisboa, aproxima-se da máquina das senhas e carrega num botão. A resposta é um latido mecânico perro, seguido do som de papel a rasgar e por fim um estampido metálico. Do orifício por onde deveria sair a senha emana agora uma pequena coluna de fumo preto. Um funcionário, depois outro e outro queixam-se que o sistema de gestão de senhas deixou de responder nos seus terminais. Como os números saem de forma sequencial independentemente do serviço a que cada utente pretende se dirigir gera-se a confusão, ninguém sabe quem é que está a seguir a quem para cada um dos guichets e iniciam-se negociações informais para decidir quem vai primeiro. Aproveitando-se da situação alguns utentes tentam criar nova jurisprudência de acesso que vá além da ordem de chegada e esgrimem-se argumentos e justificações elaboradas. “Eu já cá estive ontem, eu já perdi 15 minutos na padaria, eu deixei o arroz ao lume, há 2 semanas fui operada a uma hérnia e antes tinha sido a um quisto nos ovários que conseguia sentir quando esticava o dedo e se tivesse as unhas grandes…”
As negociações seguem a bom ritmo até que alguém se lembra de desabafar um “A culpa é toda do Sócrates”. Indignada, uma jovem com um ar muito saudável, reage violentamente ao soco e pontapé gritando “a culpa nunca pode ser de um homem tão charmoso!”. A violência alastra visando principalmente os funcionários por de trás dos balcões. O chefe de repartição tranca-se no escritório e pede reforços. Dos restantes bairros fiscais de Lisboa acorrem funcionários munidos de arsenal pesado: Todas as edições do Código do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares e Colectivas desde 1982 e formulários de auditorias e penhoras. A batalha segue renhida até à chegada da polícia de choque. O cenário é dantesco: funcionários públicos enforcados com fios de telefone pendurados no tecto, contribuintes em estado catatónico a sussurrarem “a alínea 313-B do decreto 378.908.812/96 não, por favor, não”. São disparados tiros para dispersar, que são interpretados num outro bairro ali perto, o 6 de Maio, como a chegada de mais um carregamento de droga. E como esta não chegando, e começando a circular o rumor de que tinha sido interceptada pela bófia ali para as bandas de Benfica, gangs de traficantes juntam-se aos contribuintes na batalha que se estende já por todas as repartições de Lisboa.
No dia seguinte Lisboa acorda em estado de sítio, com a contenda a alastrar a outros conflitos sociais latentes na sociedade portuguesa: Velhotes digladiam-se com mulheres grávidas pelos lugares reservados nos transportes públicos, distribuidores do Destak fazem emboscadas aos colegas do Dica da Semana, Assembleia da República vs. Chapitô e todos contra os taxistas. Acerca dos confrontos, o Papa diz que Portugal não segue a racionalidade do logos grego e que é portanto uma sociedade de cariz islâmico. Mahmoud Ahmadinejad afirma que nunca ninguém difamou assim o profeta e lança um ataque nuclear sobre o Vatic... 681 ao balcão 12… 681 ao balcão 12… Oiça lá, 681 não é o seu número? Estão a chamá-lo. O quê, ah, desculpe, estava distraído.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Debruçando-se da escarpa da falésia

Debruçando-se da escarpa da falésia João olha para baixo mas não vê o mar. Á sua frente estende-se antes uma planície irregular de terrenos cultivados de onde desponta a folhagem de batatas, couves e nabiças, as videiras trepam por canas e quando estas terminam continuam a crescer enleadas em árvores de fruto e oliveiras. O terreno, retalhado em parcelas mínimas traçadas por pequenos muros de granito, retrata a mesquinhez das divisões familiares que sulcam os rostos queimados dos habitantes da aldeia à sua direita. O cancro da avareza só possível pela riqueza do solo. João lá esteve antes e ainda ali tem ligações familiares mas a distância entre ele e estes é tão grande como a serra que marca toda a paisagem à sua esquerda. Não que João alguma vez tivesse tido uma ideia precisa do que queria ser. Sabia apenas não querer pertencer áqueles e morrer como eles, numa cama de hospital, desconhecedores do seu destino.
“Não me digas que acreditas no destino?” Perguntava-lhe alguém há dias acerca de uma morte estúpida numa praia do Rio de Janeiro. “Claro que não, referia-me apenas ao fortuito e ao acaso”. João mentiu sem intenção. Há não muito tempo atrás imaginava interpretações apartir da disposição das beatas num cinzeiro e antes disso fazia-o quando olhava para as marcas de pneus numa estrada depois da chuva.
Debruçando-se da escarpa da falésia João olha para baixo e desta vez vê o mar. À sua esquerda um farol, que ele interpreta como um indicar de direcção para o mar, e à sua direita uma povoação onde apenas conhece a senhora que lhe deu a chave do quarto da pousada, sinal claro de que há ainda portas por abrir. Há ainda um terceiro sinal, o primeiro de todos, a alastrar nas suas costas, uma nefasta herança familiar. Não lhe interessa se lhe restam 6 meses ou 6 dias. João vai fazer como sempre fez: adiar até à última hora e esperar que ainda tenha a clareza de espírito para ali regressar uma última vez.

Rasgar a vida...

Depois da Festa, ando à volta deste propósito - rasgar a vida - a explosão, outra fúria, uma revolta...

Uma letra inspirada de A Naifa, naturalmente um desejo de rasgar a vida de alto a baixo, uma folha de papel rasgada pelo meio, a necessidade de me perder por essas veredas que tanto receamos, uma vontade galopante de não controlar nada mais. Abandonei o controlo debaixo daquela tenda, quando o senhor Godinho exortava-nos à dança...

A raiva esperou o momento certo, preciso. Agora, pontapeio com violência todas as reminescências que sustentam a minha existência, essas mesmas que me remetem à impossibilidade de agarrar o afecto que vai pontuando a minha vida...

A pujança necessária para esmurrar esse saco de boxe, toda a minha força sobre essa massa compacta. De forma compulsiva, tento esmagar o peso da inércia, da imobilidade, esses momentos que adiamos, empurramos preguiçosamente para a frente...

Ouço as trombetas, vislumbro o sinal, passada firme no alcatrão quente, sinto a vida a ser rasgada de uma outra forma. Componho mais uma vez o filme, a banda sonora reúne a voz que sente o mesmo fascínio pelo risco, o limite, a película ilumina uma vida, outras mais, coladas, cosidas, uma folha de cicatrizes...

A pergunta que grita mais alto...

Vamos rasgar a vida?

domingo, setembro 24, 2006

A paternidade adiada...(2)

Deste lado do vidro, eu com o teu número na mão. Do outro lado, tu nos braços de uma enfermeira. "É o pai?" Pai? Quem? Eu? Não! Reflectido no vidro, a irresponsabilidade típica do número 17, repetida por mais de uma década, infinita como a curva de um 0.
Faltei-te. Faltei-te mais do que a tua idade te permite ter actualmente consciência. Ainda vou a tempo? Tens a certeza? Então faz a mala e anda daí. Primeiro conselho: travel light.

sexta-feira, setembro 22, 2006

Vento leste...

Um vento forte, alegre, arranhado pelas vias torpes da vida...

O nome...Natascha...sopras desde Sarajevo, rajadas, sopro subtil, ventanias em rodopio teatral, sopras desde a tua terra, teatro de guerra na tua vida.

Lisboa, 2 filhos, uma mala embrulhada em referências por todos os balcãs. Amor e família separados pela impossibilidade de reconhecer os laços de outrora.

2 filhos, terras de Lisboa, língua metralhadora a disparar em bocas alheias. Orfã de afectos, sobram os temperos da tua cozinha, a necessidade de te atirares à sobrevivência. Primeiro, o desmanchar em simpatia num qualquer café para o turista, depois, a apropriação episódica de uma nova língua. Quando sobreviver deixou de te sobressaltar, fizeste TEATRO.

Fizeste teatro, derramaste a tua história, voltaste à vida...

segunda-feira, setembro 18, 2006

Soneto

Nara Leão não tinha a voz de Bethânia nem a exuberância de Elis. O que ela tinha era aquele sentimento único que transformou uma voz banal na diva da Bossa Nova durante as décadas de ‘60 e ‘70. O seu canto tinha aquela tonalidade reservada apenas a quem passou demasiadas noites acordada, numa cama grande demais, num quarto demasiado quente com a janela aberta para o som do mar.
Também tinha uma sensibilidade daquelas que reconhece um génio até quando se tropeça nele. Foi a primeira a gravar músicas de um tal de Chico Buarque, depois de Elis Regina ter dito que ia pensar no assunto. Nara não pensou, cantou. E de que maneira.

Soneto
(Chico Buarque)

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio