terça-feira, outubro 03, 2006

Porquê?

A língua é um local filha da puta. Recordo-me de um almoço de família, década de 80, aquele pato assado do forno da minha mãe (paraíso das minhas largas bochechas presidenciáveis) e o meu tio emigrado no Brasil sentado ao meu lado direito. A conversa começou logo estranha, com aquele sotaque telenovela mas muitos debicéis acima do som da televisão, como se se quisesse fazer ouvir lá do outro lado do Atlântico: “Oh Armanda, este pato está filha da puta! Bom pra xuxu”. Após o choque inicial lá percebi o contexto e nas semanas seguintes não havia frase minha que não envolvesse um filha da puta isto, um filha da puta aquilo… Finalmente a mão pesada do meu pai lá voltou a contextualizar-me no vernáculo deste lado do oceano.
Entendo o fascínio de Caetano Veloso pelas expressões que assumem um cariz distinto fora do meio que nos é familiar: "Acho bonita a maneira como, linguisticamente, os portugueses resolveram a questão do orgasmo. No Brasil, usamos o verbo gozar, como na França. Mas é como se estivesse acabando alguma coisa. Estou-me a vir é reflexivo, ou seja, fala de si próprio. E ainda dá uma idéia de continuidade". Claro que os ditadores do bom do gosto do Público não gostaram e lá deram a sua bofetada intelectual ao orgasmo lusitano do sexagenário baiano: “Ridículo!”. Porquê?


Porquê?
(Caetano Veloso)

Estou-me a vir
Estou-me a vir
Estou-me a vir e tu como é que te tens por dentro?
Porquê não te vens também?
Estou-me a vir
Estou-me a vir
(repetido até à doce exaustão)

1 comentário:

Anónimo disse...

Vai ver que os lusitanos ainda não descobrir o verdadeiro prazer dessa relação, ou então o brasileiro é descarado demais para poder associar gozar a tudo! Vai itende sô?

Valeu