sexta-feira, dezembro 08, 2006
domingo, novembro 26, 2006
Soneto
(Vinicius de Moraes)
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
o seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Estoril, Outubro, 1939
sexta-feira, novembro 24, 2006
Fazer acrobacias...
Aprendi a escalar montanhas. Sou alpinista
OS ACROBATAS
(Vinicius de Moraes)
Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
o grande mar de estrelas
Através de milénios de luz.
Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
na calma convulsa da ascensão.
Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
lá onde o infinito
de tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!
Tensos
pela corda luminosa
que pende invisível
e cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
do grande mar de estrelas
onde dorme a noite
Subamos!
Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
na fibra do pescoço
os pés agudos em ponta.
Como no espasmo.
E quando
lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus
Num último impulso
libertados do espírito
despojados da carne
Nós nos possuiremos.
E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.
quinta-feira, novembro 09, 2006
Ouve lá, senhor Golfinho...

Entrar com passos seguros, o sono de quem irrompe o dia a horas madrugadoras, sentar-me no lugar de sempre, colar-me à janela, espreitar de soslaio a vizinhança cercana, apalpar os próximos minutos, colar-me à janela. Uma nova mirada aos semblantes laterais, quiça, a beleza num piscar de olhos....
- Ouve lá, Senhor Golfinho, este governo chupa-nos até o tutano
Primeiras gordas na Sexta ou Y, talvez Kyoto dos jardins japoneses com desenho harmonioso de crisântemos, flôr de lótus, e a silhueta de um corpo imaginado por entre quimonos vários. Cai a chuva, o dia assume os tons da noite, a sucessão de aldeias desta urbe, as caras familiares, os putos e as suas malas Sportbilly a caminho da escola. Espera-os aquelas aulas de matemática, em que a vergonha e a inibição obriga a professora a apontar o menino Golfinho na pauta colorida em 3 por 4...
- Menino Golfinho, venha ao quadro resolver esta equação de segundo grau!!!
Às vezes, o meu lugar permanece ocupado. Pressinto logo o que aí vem. Começo a sentir as silhuetas avantajadas de uns e umas, a roçar pegajosamente o meu ombro esquerdo. Efeitos outros de uma mini e sande de corato depois do Olivais e Moscavide aviar o Alcochetense com uma valente goleada, uma cintura que cresce proporcionalmente ao número de filhos, ou a bejeca despachada ao fim do dia quando o patrão insiste em chamar o senhor Golfinho ao seu escritório. A frieza tirana dos números logo dispara...
- Senhor Golfinho, ou isto melhora ou pode-se dar o azar de ....
O oitenta um da carris - Prior Velho/ Praça do Comércio - está a chegar a um dos seus destinos, a estação fluvial do tejo. Levanto-me a tempo de sentir aquele bafo de uma senhora bonita que insiste em mostrar a todos, que boca lavada e hálito fresquinho é a primeira condição para que o dia possa ter contornos positivos.
- Senhor Golfinho, às vezes os odores podem tramar a vida de uma pessoa!!!
A ponte, o exercício de trigonometria (seno+coseno+ seno), duas formas triangulares em suspenso sobre o rio. Sinto-me sempre um personagem do Smoke, a voltar ao mesmo lugar a cada manhã, quase à mesma hora, para flagrar a respiração própria de cada dia através DA imagem. Para Paul Auster, a esquina, no meu quotidiano a ponte.
- Senhor Golfinho, saudades à patroa!!!
Volto a dormir até à cidade de sonho e futuro como se afirma em outdoor camarário. Quando acordo, sento-me ao lado de uma criança que me mostra um futuro onde deixou de ser possível sonhar. Será??
quarta-feira, novembro 08, 2006
A Sr.ª Delfina
Digo quase homogéneo porque novamente os homens marcam presença, sem serem vistos, nos trajes femininos. As viúvas envergam o lenço negro que lhes cobre todo o cabelo grisalho e as casadas distinguem-se pela roupa que varia entre o branco e as diferentes tonalidades de castanho, como num retrato sépia. De facto, se o mundo se resumisse a Póvoa de Midões nunca se teria inventado o Kodachrome (aquele mesmo da música do Paul Simon) e um simples retrato seria ainda um processo de largo minutos envolto em roupas de Domingo. Se exceptuarmos a invasão de emigrantes do mês de Agosto e a antena parabólica no telhado da Casa do Povo poderia dizer-se que aldeia estava parada no tempo de um outro senhor.
É preciso olhar muito atentamente para o bulício feminino para encontrar a excepção a este padrão. Mais precisamente é preciso olhar atentamente para o que a Sr.ª Delfina traz debaixo do braço depois de sair da Casa do Povo. Aninhado no sovaco do mesmo braço que carrega o típico saco do pão, ainda tecido em algodão, podemos ver um exemplar do Diário Económico. A Sr.ª Delfina a meio da manhã, entre os afazeres da horta e a lida dos animais, liga a powerbox no canal Bloomberg, folheia o jornal e, nos dias bons, naqueles em que sorri e esfrega as mãos, faz uma chamada para Lisboa e dá ordens de compra ou venda. Nas tardes em que passo pela quinta, para provar do bolo mármore ainda quente ou de uma fatia de bola bacalhau, sou habitualmente bombardeado com histórias do mundo dos negócios, mexericos de aldeia e perguntas sobre o mundo de lá de fora: “Hoje ganhei 2.000€ em acções da PT, é este Verão que se arranja o telhado”, “Achas que apesar da minha idade eu ainda conseguia aprender a mexer na Internet? Era mais simples do que estar sempre a ligar para a correctora”, “Olha, já me esqueci como é que ponho os cd’s que me deste da Amália a tocar, vais ter que me explicar outra vez”.
Hoje (dia 5) a conversa foi diferente. Sentada na mesa da cozinha e antes mesmo de me estender uma cadeira, a Sr.ª Delfina disse: “ Sabes que dia é hoje? Se fosse viva, ela fazia hoje 55 anos. Sabes que fui eu quem a apanhou do chão? Chamaram a parteira tarde demais. A tua avó não se mexia com dores e fui eu quem a foi apanhar do chão.”
terça-feira, novembro 07, 2006
Para o caderninho de S.
Inevitavelmente, eu e o senhor de bigode grisalho por detrás do balcão somos agora mais espectadores daquele diálogo do que do jogo que passa na televisão. Um deles chora a morte da mulher como se a tivesse enterrado hoje e bebe para esquecer. Pelas respostas do outro percebemos que ela já se foi faz quase uma década e bebe apenas por solidariedade.
- Ó Joaquim, traz mais duas!
- Mais duas não, que já não consigo fazer o 4.
- Não consegues fazer o 4 porque nunca foste à escola. Traz mais duas que eu pago!
terça-feira, outubro 24, 2006
GOIABADA CASCÃO
Dedão na boca, perna curta entalada pelo short azul de bainhas, Conceição pensava na ladeira que se precipitava naquele instante. Dava para sentir o drama do menino querendo chegar lá no Zacarias, onde moravam seus amigos Cebolinha, Mónica e Cascão, sim, o Cascão....
Quiosque do Zacarias, logo Conceição, Mamãe me compra o Globinho, mamãe indiferente, Conceição de novo, mamãezinha me compra o Globinho!!!!!
- NÃO LIGA NÃO, ZACARIAS!!! Agora tá nessa de ler jornal. Conceição não desistia, mamãe, ma...mãe, me compra, vai, me compra o Globinho, tem Mónica, Cebolinha e Cascão, o meu amigo Cascão, aquele que vai lá em casa. Tá lembrada não??
- VIXE MENINO!!! Larga do meu pé, você tem 4 anos, nem sabe ler direito, e já tá pensando em ler jornal, fazer amizade com Cascão. CONCEIÇÃO AUGUSTO, TOOOOOOME TENTO....
- PUXA O SHORT PARA CIMA, MENINO!!!...Sempre com essa mania de coçar a bunda!!!
Conceição continuava com seu amigo Cascão. Dessa vez, eles tavam sonhando os dois em cima de um pé de laranja lima, feito cavalo de dorsel. Acho que eles estavam com o menino Pedro Bala da Bahia, e o Pedrinho da roça mesmo. Estavam todos bolando como dar um trote daqueles, naquela menina que vive zombando deles, só porque tá na primeira série e tem 7 anos. É, ela mesma, a Bruna. De vez em quando Conceição voltava ao mesmo, mamãe me compra o Globinho!!!
- Short para cima MOLEQUE, não quero mais ver essa bunda!!!
Uma vez mais, Mamãe me compra o Globinho
terça-feira, outubro 17, 2006
sexta-feira, outubro 13, 2006
A Paternidade adiada...(3)
Onde é que eu estou? Alguém me diz onde é que eu estou?? Que cama é esta, porque é que estou deitada e sinto tanta dor?? Que coisa horrosa, janelas foscas, lâmpadas sobre bebés, caixas de vidro, muitas mulheres com ar estafado!! Paredes bolorentas, algumas pessoas de branco a passar à minha frente, choro de bebé, porra, mas onde é que eu estou? Não, não, não, não pode ser, é, será? Não, merda, não pode ser?? F..i..lh..o...NÃOOOOO....Na caixinha ao meu lado, tanto pêlo, bochechas gordas, e aquela coisa gusmenta junto ao nariz. Não, não é meu filho, estou aqui por engano. Dói tanto junto ao umbigo, o que se passa?
- Tem um rico menino!
Mas quem és tu? Que é que estás para aí a dizer? Rico menino? Cala-te, Não quero ouvir !!! Quem me dera que estes pensamentos tivessem voz. Cala-te, não é o meu menino. Tenho 13 anos, vivo onde ninguém quer morar, 4ª classe, nunca trabalhei, os meus cotas estão muito longe. Novamente a voz daquele gajo de branco...
- Um rico menino!
O quê? Quer-me tocar? Não, todo este hospital já me tocou, não , nem pensar. A bazar à minha frente, já!!! Ah, quer ver os pontos, pare com isso, não lhe dou o direito. Pare, por favor !!! Porque não consigo dizer-lhe para parar? Vá à sua vidinha, com as outras mãe todas. Ponha-se a andar daqui para fora...
13 anos, não faço ideia de quem terá sido o f.d.p. que me fez este belo serviço. Deitada ao lado destas mulheres, quero voltar para o bairro. Toda a gente a olhar para mim, não sou um ET, parece que as ouço todas, tão novinha, uma menina que devia andar na escola, igualzinha à minha mais velha. Calem-se, já disse !!! Da minha vida eu é que sei, metam-se nas vossas vidinhas ridículas...
- Um rico menino!
Começaste a chorar baixinho, o que é que eu faço? Olho à minha volta, sim, é só copiar o que as outras mulheres fazem. Segurar-te, aiiii, que medo, não, vais-te partir assim, não, pára quieto, pareces o meu boneco julião, ai, ai, ai, ai!!! Ajuda-me, tem paciência, não sei fazer isto, horrível, não sei, MÃAAAAAE. Não sei...
- Um rico menino!
Já ouvi, não precisa de repetir, sim, tá com fome. Preciso de o amamentar!!! Gostava de lhe poder dizer para ficar, por favor, fique aqui, não sei fazer isto. Por favor, ouça os meus pensamentos, por favor, fique aqui!!! Encosto-o junto a mim, sinto o coração dele a bater, tenho que fazer tudo como o gajo de branco me disse. Aproximo o queixo dele, umas pequenas carícias na bochecha, envolvo-o no meu peito............PÁRA, PÁRA, isso é insuportável, pára, não consigo, não consigo, não consigo, dói tanto, dói tanto....Porque é que eu tou a chorar?? Não quero chorar...Meu filho, sim, meu filho !!!!
- Um rico menino!
Um rico menino tem que ter nome, penso eu. Tenho que ligar para o bairro, alguém tem que avisar a minha tia, dizer-lhe que SOU MÃE, parece inacreditável, usar essa palavra para me difinir, para caracterizar essa nova condição que nasceu em mim. Ela vai apanhar um susto, não vai perceber nada, vai achar que é mais uma das minhas brincadeiras. Nunca se viu barriga, como foi isto acontecer??? Boa pergunta, senhor enfermeiro, tenho que lhe dar um nome. Bruno Maurício? Não. Taonan Almeida? Não. Kelvin Thomas? Não. Rivelino dos Santos? Não. Bertoldo António? Não. Qual será o teu nome, meu filho?? Fortunato, sim, vejo-te como Fortunato, tá decidido, serás Fortunato...
- Um rico menino!
Outra vez, filho. Não pode ser, Fortunato, estão todos a dormir aqui. Daqui a pouco, isto passa a ser uma choradeira pegada. Filhinho...schiii...schiiii, vem para pertinho de mim, pronto, pronto, já passou, cólica má, pronto, pronto. Não podes tar com fome, só pode ser mais uma noite cheio da cólicas...Calma, Fortunato, por favor, olha o Pedro já acordou, daqui a nada, acorda o Francisco, a Madalena e aquela menina lá do canto. Vá...schiuu...schiuuu, dorme, meu anjinho, dorme que isso já vai passar....não consigo acalmar o meu próprio filho, que desespero, que aflição....
- Um rico menino!
Sim, pode pegá-lo, sim, tou exausta, estas 3 noites sem pregar olho, toda a gente acordada por causa dele. Tudo bem, pode ir dar uma volta com ele. Vejo-te a sair do quarto, ao colo do enfermeiro, não, não me pode tirar o filho, ainda o ouço a dizer há uns segundos atrás...está exausta mãe, eu vou levá-los por uns instantes...Não, não aceito. Onde é que estás Fortunato?? Onde?? Onde??? Saio do quarto e vejo-te no final deste corredor enorme, a dormir tranquilamente, embalado por uma dengosa melodia. Não, não é o pai, tu sabes bem disso. Não, não é o pai...
terça-feira, outubro 03, 2006
Porquê?
Entendo o fascínio de Caetano Veloso pelas expressões que assumem um cariz distinto fora do meio que nos é familiar: "Acho bonita a maneira como, linguisticamente, os portugueses resolveram a questão do orgasmo. No Brasil, usamos o verbo gozar, como na França. Mas é como se estivesse acabando alguma coisa. Estou-me a vir é reflexivo, ou seja, fala de si próprio. E ainda dá uma idéia de continuidade". Claro que os ditadores do bom do gosto do Público não gostaram e lá deram a sua bofetada intelectual ao orgasmo lusitano do sexagenário baiano: “Ridículo!”. Porquê?
(Caetano Veloso)
Estou-me a vir
Estou-me a vir
Estou-me a vir e tu como é que te tens por dentro?
Porquê não te vens também?
Estou-me a vir
Estou-me a vir
(repetido até à doce exaustão)

