Debruçando-se da escarpa da falésia
“Não me digas que acreditas no destino?” Perguntava-lhe alguém há dias acerca de uma morte estúpida numa praia do Rio de Janeiro. “Claro que não, referia-me apenas ao fortuito e ao acaso”. João mentiu sem intenção. Há não muito tempo atrás imaginava interpretações apartir da disposição das beatas num cinzeiro e antes disso fazia-o quando olhava para as marcas de pneus numa estrada depois da chuva.
Debruçando-se da escarpa da falésia João olha para baixo e desta vez vê o mar. À sua esquerda um farol, que ele interpreta como um indicar de direcção para o mar, e à sua direita uma povoação onde apenas conhece a senhora que lhe deu a chave do quarto da pousada, sinal claro de que há ainda portas por abrir. Há ainda um terceiro sinal, o primeiro de todos, a alastrar nas suas costas, uma nefasta herança familiar. Não lhe interessa se lhe restam 6 meses ou 6 dias. João vai fazer como sempre fez: adiar até à última hora e esperar que ainda tenha a clareza de espírito para ali regressar uma última vez.





