terça-feira, maio 01, 2007

Abraço colectivo

Vamos ter aulas lá em baixo, sim, na sala de matrecos. Estranho, tens mesmo a certeza. Está bem, já vou, o quê ?? Não, nunca me lembro desses recados especiais, já sabes. Roupas confortáveis.

Olivais, cercanias da velha igreja,

Figura estranha, voz arranhada, olhos doces, próximos de toda a gente. Chama-se Arlete, é a nossa professora de uma disciplina de Opção – Dinâmicas de grupo. Uma roda de gente, Pedro deitado na praia, Pipa a remexer no cabelo da futura presidente Mara, a Anita a espreitar para um outro lado da sua formosura, hipnose, é o que eu chamo a isto. Hipnose, só pode ser. Ou então, uma charlatã de uma dessas coisas obscuras. Quem é mesmo esta senhora ??? O que é que viemos aqui fazer??? Isto é um curso de enfermagem, não é lugar para estas coisas imprecisas. Vá, vamos embora, Psst, Psst…Não queres vir, NÃO!!!...

as costas de um centro paroquial,

Pintar um cartaz com as nossas imagens, as nossas referências !!!! Ah, sim, já percebi. Estamos num atelier de expressão plástica. Muito bem, quantos cursos superiores estão cheios de coisas inúteis. Mas porque é que toda a gente está a sorrir, tanta espontaneidade, e cores várias a dar forma a esse papel pardo. Desculpa, sei que não tenho jeito nenhum para isto, não, não vale a pena, trago muito peso lá de fora, o pincel pesa demais nesta mão direita. É quase uma inaptidão…..Apetece-me deitar, juntar-me ao chão, talvez segurar no lápis de carvão, um azul, e outro verde, alguma coisa há de sair…Não sei se consigo disfarçar este prazer, alguém estará a reparar??? Aquela presença, o seu olhar.

Fábricas, carrinhas brancas cheias de mercadoria

Estamos tão próximos, sinto a tua pele, sinto-te a pulsar. Estás calma, e tu também, suas muito das mãos, que tal soltar a mão, já percebi, não queres romper o cordão. Mãos dadas, o olhar do outro, uns muito malandros cheios de reviengas, outros a pedir colo, muito moribundos, aquele está muito nervoso, será da presença dela, não sei. Outra a vez a fazer coisas sem sentido, tem mesmo que ser assim? Agora são os braços que se tocam, se cruzam, ficamos em nó. Aparentemente indissociável. Estamos juntos, é só isso que se exige. Muitos braços em roda e o silêncio. Porreiro. Estás sempre aí, aparentemente de fora em observação, mas não consegues evitar colocar-te dentro, no meio, ao lado. Estás aqui. Estás.

Gentes da faculdade, o olhar cabisbaixo do Sr.Ramos, o coração amanteigado no dizer da Dona Aurora, um outro coração susceptível, no meu dizer.

Estou deitado, braços firmes junto ao tronco. Espero. Sinto o toque. Dedos a fazer piruetas na minha cara bolachuda. Coreografia de prazer, proximidade. Quantos bailarinos pisam assim o meu rosto?? Coisa boa demais, confesso no meu outro sotaque. Continuem, não parem, continuem, não se vão embora, acomodem-se. Por favor, eu apelo à Prof.Arlete, por favor, queiram parar eternamente no meu rosto.

estava encontrada a capela mortuária

O centro da roda. Um duelo, as armas, as nossas vidas. Cadeiras, corpo empurrado à frente, o meu discurso cheio de bolor, a ultrapassar claramente o prazo. O passado. Não, não, não, não, quero falar disso. Já posso sair, ainda tenho que ficar mais, porquê a vossa cara assustada, meus colegas, meus amigos. Tenho que acabar com isto. Não quero falar mais, não quero. Dizes-me enfim alguma coisa. Gastei todos os cartuchos. Ficam as tuas palavras, fica a tua companhia, a impressão que não estava a falar pró boneco. Continuas aí, obrigado. Talvez tenha sido bom disparar umas quantas balas.

a névoa, os contornos do ritual instituído, o corpo coberto

Ninguém quer aceitar o final das suas aulas, nem mesmo eu. Falas do grupo, das pessoas, de como podemos estar na vida de uma outra forma. Desejas que sejamos bons enfermeiros, palavras de circunstância, ainda assim, as tuas palavras. Urge fazer qualquer coisa, meus amigos, seguramente estão a sentir o mesmo que eu. Sim, é isso, ABRAÇO COLECTIVO. No uso de uma outra linguagem, diria que estamos em estado fusional. Massa de betão. Qualquer coisa de indivisível. Eta, coisa boa. Deixa-me encostar a cabeça. Tão bom. Quentinho.

As minhas lágrimas, uma pessoa transformado em legado, o abraço. Para sempre.

quarta-feira, abril 25, 2007

Filhos da Madrugada

Av da Liberdade - 25.ABR.2007

domingo, março 04, 2007

Dizer não !!!

O outro lado da linha, uma parte da minha vida, estilhaços daquilo que procurei...

Parabéns, meu pai !!!

O telefone, a tua voz -grave e sumidiça - a rodopiar sobre um dia de idade redonda. 60 anos. Parecias feliz em companhia das palavras de circunstância de um dos teus filhos. Queria dizer algo mais, queria significar todas as noites que a tua lembrança sangra o sonho. Derramo-me em polaroids descoloridas, instantâneos que retratam o medo.

Parabéns, meu pai !!!

O cachimbo no canto da boca, um ar altivo e pesado, contornos de fumo em círculos, o cheiro a ficar agarrado a cada canto da casa. O café pela manhã, a porta entreaberta, o teu dia que se pensava na sanita, muito poucas palavras, a despedida apressada. A seco, de costas, em fuga.

Parabéns, meu pai !!!

O aeroporto, porta de chegada. A espera. Brasil, Angola, EUA, locais fantasiados na tua ausência. Horas madrugadoras, muitas ramelas no bordo interno dos olhos, cabelos em desalinho, o nervosismo em palavras mais acesas naquele jogo verbal entre a mana velha e a mãe. Estavas a chegar. Em nós instalava-se devagar a tua iminente chegada. Um carro de rodas metálicas, cinzento-prata, muitas malas, talvez uma prenda desejada há muito. O teu porte imperial a irromper naquela avenida descendente. Chegaste, queríamos um abraço perdido no tempo que andaste em roda livre por todos aqueles países. Um abraço.

Parabéns, meu pai !!!

Uma vez mais, a tua voz ao telefone. Perguntavas-me todos os meses…Como estás meu filho?...A resposta invariável, está tudo bem pai, tudo bem. A escola, os manos, o Sporting, conversas à volta de nada, não sabia responder mais nada para além de tudo bem. A minha única resposta, o peso acumulado, a sensação de estar ausente na presença da tua voz. Muitos meses, anos, a ausência tornada presente entre um tudo bem, talvez, não sei, a anuência evasiva à tua forma característica de dizeres presente.

Parabéns, meu pai !!!

O Renault 25, o nosso carro-sonho. O meu pai tem um carro que fala, que nos diz quando a porta está mal fechada, o teu pai ainda conduz carros que não falam. Sim, o carro afirmava um pai idealizado na ida ao velhinho estádio de Alvalade, onde se desfilavam histórias do passado, das vitórias de um outro tempo, dos rádios a pilha encostados aos ouvidos, das almofadas “emblemadas” pelo leão, sentava-me a teu lado na fila 33 lugar 7 e esperava. Esperava que o meu imaginário fizesse rodopios em redor da tua vida num passado recente.
O mesmo carro que nos transportava até ao estádio nacional, raquetes na mão, o saibro debaixo dos pés, um jogo de match-points, bola lá, bola cá, o suor empoeirado, o esgar feliz no teu rosto, tinhas conseguido ir ao nosso encontro. Jogar ténis, voltar a ti, aos momentos fragmentados do orgulho que crescia na tua condição de pai. O meu pai tem um carro que fala, o teu não. Sim, é verdade, o meu pai…

Parabéns, meu pai !!!

17 anos e um cadeirão, eis o que me esperava quando o meu mapa de referências subitamente se transforma. Tinha chegado ao Brasil. Estava, enfim, na tua presença. O cadeirão convidava-me a estar na tua cabeceira, urgia começar a ouvir-te, apreender as histórias que te fizeram filho, pai, avô, homem de negócios, empreendedor de mãos cheias, uma admiração que crescia sempre que uma nova história se erguia no meu intimo. Ao redor, a escuridão de um quarto arrefecido pela refrigeração, as imagens televisionadas a sucederem-se, a recusa pela luz natural, novamente, as histórias de outrem, a tonalidade cinzenta, parda, descolorida que se foi sedimentando pela calada, digamos, de forma insidiosa.

Parabéns, meu pai !!!

A herança, o legado de uma condição marginal. Finanças, IRS, Segurança Social, figura de contribuinte, licenças camarárias, formalismos burocráticos, ratificações cegas, dívidas trabalhistas, entidades fantasmas, contextos ausentes de significado ao longo da tua vida. Guardo tudo isso com admiração confessa, conservo esse registo border-line em muitas instâncias da minha vida, uma impulsividade que me impele a subverter muitas coisas estabelecidas, que me empurra para o pai que ainda idealizo.

Parabéns, meu pai !!!

A tua fragilidade, um olhar que assume uma outra nuance. Não podes oscilar mais entre polaridades extremas, não, ergo o braço e digo basta. Um exercício de auto-comiseração que me deixa completamente carcomido, sem espaço para voltar a respirar ar de segurança e determinação. Dizer não, é tudo quanto me resta para te acomodar em sonhos reparadores.
Dizer NÃO ...

terça-feira, fevereiro 27, 2007

A Magia da Rádio

Porque é que será que a menina não se encosta mim quando dança? Será medo de me pisar?


José Duarte em A Menina Dança?

domingo, janeiro 14, 2007

Costa Vicentina

Onde a falésia fecha a sua curva sobre o mar, um pouco para lá do fim do areal, no exacto local onde as ondas rebentam, é lá que quero largar a âncora e deixar os meus pés enterrarem-se entre as algas.

domingo, dezembro 17, 2006

Fora de moda

Por estes dias, ao parar na conversa de uns tantos transeuntes, volto à ideia de manifestar as minhas intenções para a vida, os meus propósitos na relação que mantenho com todos os outros. Aqueles diziam "...ó Felizmino, porra!!!! Chega dessa merda de andares sempre a dar o dito pelo não dito. Vamos mas é colocar a coisa no papel...". De repente, comecei a sentir-me o Felizmino daquela história, ou seja, urge untar a mão à laia de compromisso de honra. Inspirado pelas figuras romanescas que preenchem os livros da minha infância, apetece-me dar forma a um compromisso que pretendo consagrar no tempo que me coube em sorte. Em texto corrido ou saltitante aqui vai disto…

Fazer o belo cocó todos os dias (um pouco de escatologia para começar assenta bem, dizem por aí)

Erguer o meu espaço, uma casa que possa ser central na vida dos meus – família e amigos. Imagino vários montes de livros, receitas de cozinha, estatuetas africanas, cd´s, quase a delimitar um mapa das coisas que me são caras. Não pode deixar de haver muitas plantas, uns quantos animais (tudo menos pombos), e sim, uma cozinha com forno a lenha onde eu possa demorar-me nos meus cozinhados, um dia, muito afamados. Outras tantas cores nas paredes feng-shui, uma cama XXL onde a malfadada roncopatia não te possa incomodar, um trampolim para fazer saltitar as ideias que pululam aqui dentro, uma juke-box com selecção musical própria. Tudo isto a pulsar com a visita, a estadia, o cruzamento de todos aqueles a quem estendo um grande abraço.

Construir uma história…

Poder-me rir às bandeiras despregadas com o primeiro cocó, as primeiras palavras (que seja papá, ou vá lá, Ri ri ca do), os primeiros arranhões, o primeiro olhar constrangido para aquela amiguinha tão bonita, enfim, os contornos iniciais de uma outra condição nas nossas vidas.

De infâncias reconstruídas com o labor reflexivo…

Manter o mais velho dos rituais que me estruturam, o encontro semanal com os jornais. Outrora o Globinho, a revista Manchete, passando pelo Record e as páginas desportivas do Público, o Independente e a irreverência made by MEC, novamente o Globo e a histórica revista Cruzeiro, como esquecer o DNA, absolutamente decisivo para estar na vida de uma outra forma, agora o Y e a Sexta, que ainda têm que se fazer à vida para perdurarem nestas memórias.

Um galão e uma torrada com grossas camadas de manteiga…

Voltar a andar pelos sebos ou alfarrabistas conforme a origem do português, chafurdar por entre o pó, a desordem e páginas moribundas para mais uma conversa com o senhor Livreiro, artífice desse ofício de orientar outrem ao encontro do LIVRO, ou apenas um nostálgico pretexto para reencontrar aquele PAI das cercanias do Sahara carioca.

Um cavalete, alguns quadros por pintar, muita tinta espalhada…

Poder sentar à beira de um mar idealizado por minha MÃE desde sempre. Um alpendre demorado em dunas douradas, a tranquilidade ambicionada, um rosto sulcado pela paz. Sentaremos, mãe. Eu, tu, Sofia, Marta, Tiago e Diogo, sim, Sentaremos.

Um grande puff no meio da sala, auscultadores no ouvido…

Vocês, meus manos, fiquem a saber que estarei por perto quando a vida teimar na errância, ou nos outros momentos em que podemos sorrir de coração livre. Sempre por perto, mesmo que a distância se imponha.

O saxofone enlevado por um certo violino…

Um terreno, uma terra fértil dos meus sonhos de menino bom, a companhia de todos que tanto amo, a certeza que estou a deitar mãos à minha obra. Com vagar, feita em fios de filigrana, no ritmo próprio de uma outra idade. Natural e simples, sem excessos e sujidade, no tom certo.

O mosaico retalhado das nossas vidas em película fotográfica…

Dar vida à revienga de uma bola de Catchu, as suas travessuras por entre pernas alheias. Nunca deixar morrer essa infância feita com uma bola debaixo do braço e a expectativa de fascinar o mundo através dessa arte de esférico nos pés.

Uma rede ocupada por essa invejável capacidade de nada fazer, apenas planar…

Não calar a inquietude que alimenta a minha avidez pela pessoa humana. Essa que se revela nos autores que subsidiam o meu imaginário, nos quadros que aprumam a minha estética pessoal, na música que me ensinou a conceber paisagens sonoras, no encontro fortuito nas veredas da grande urbe.

Os corpos despidos sob o calor de lenha incandescente…

Perder-me na Dança que dispensa tudo, palavra, olhar, intelecto. Apenas toque numa relação que se adensa em ímpeto, desejo, instinto. Trata de sermos um pouco animais, tribais, carnais e outros tantos ais. O som único do bandaneon de Piazzola, a beleza que se afirma na ousadia pelo risco, pela não-normalidade de dois trapezistas em frágil equilíbrio sobre o abismo. Tango. Vida ou morte.

O sorriso leve-leve a provocar ressonâncias de emoção…

Quando uma outra idade chegar, poder sentar na cadeira do meu Avô, reunir filhos e netos, e, finalmente, tornar-me um Contador de Histórias. Contar uma vida plena, sem censuras, limites, imposições, em que as personagens possam aludir a Vinicius – o meu parceirinho de sempre – no seu desígnio de viver no Absoluto. Contar os outros, Contar-me, Contar-vos.

Amar tudo em ti…Sempre…

sexta-feira, dezembro 15, 2006

A banheira que diz olá...

06:45 da manhã, o som de alvorada insiste em dizer que está na hora de me fazer a um novo dia. No horizonte próximo, mais um momento de um quase diálogo que se impõe a cada manhã.

Aproximo-me, um primeiro olhar, paredes outrora alvas a dar forma à banheira onde todos os dias, cumpro o ritual. Sinto os primeiros estremecimentos, qual monstro que desperta ao primeiro sinal de alerta...

Abro a torneira esquerda, a da água quente (por vezes, convém traduzir), o primeiro bom dia, a água que escorre aos soluços, hesitando em cair, teimando em não ficar quente. Abro a cortina, enfio-me na dita, ouço a minha voz...Estou pronto!!!!

O corpo arrefece, começa a dar sinais de alguma irritação. A tal quase sorri...

Aos segundos sinais de vida da referida, vulgo vibração, cedo em abrir mais a torneira vermelha, agora sim, água límpida a cair, a jorrar em abundância sobre a mesma. Com água a ferver, por premeditação daquela, obrigo-me a abrir a torneira fria, e aqui instala-se o conflito...

Passo a instrumentar o jogo de torneiras, ora para a direita, talvez para a esquerda, de volta à quente, num diálogo estranho, pouco compreensível, aludindo a muito mais que um bom dia...Como se a respectiva, não estivesse interessada em fazer ouvir as suas palavras. Apenas ruído, e muita provocação. Uma molequada, uma travessura de menina levada...

A custo, vou tirando o sabão, e decido-me por encerrar o diálogo. Há coisas mais interessantes para fazer, do que enredar-me nas provocações de uma banheira qualquer...

sexta-feira, dezembro 08, 2006

Na mouche, sr. Proust

"Em amor é um erro falar-se de uma má escolha, uma vez que, havendo escolha, ela tem de ser sempre má."

In A Fugitiva, Marcel Proust

domingo, novembro 26, 2006

Soneto

De frente para azul quase infinito do mar


SONETO DA FIDELIDADE
(Vinicius de Moraes)

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
o seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Estoril, Outubro, 1939


Camila Morgado na caixa do lado, da BSO de Vinicius

sexta-feira, novembro 24, 2006

Fazer acrobacias...

Encontrei-te...
Aprendi a escalar montanhas. Sou alpinista
Encontrei-me...
Em plena acrobacia



Camila Morgado in Vinicius

OS ACROBATAS
(Vinicius de Moraes)

Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
o grande mar de estrelas
Através de milénios de luz.
Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
na calma convulsa da ascensão.
Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
lá onde o infinito
de tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!
Tensos
pela corda luminosa
que pende invisível
e cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
do grande mar de estrelas
onde dorme a noite
Subamos!
Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
na fibra do pescoço
os pés agudos em ponta.
Como no espasmo.
E quando
lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus
Num último impulso
libertados do espírito
despojados da carne
Nós nos possuiremos.
E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.