quarta-feira, abril 25, 2007
domingo, março 04, 2007
Dizer não !!!
O outro lado da linha, uma parte da minha vida, estilhaços daquilo que procurei...
Parabéns, meu pai !!!
O telefone, a tua voz -grave e sumidiça - a rodopiar sobre um dia de idade redonda. 60 anos. Parecias feliz em companhia das palavras de circunstância de um dos teus filhos. Queria dizer algo mais, queria significar todas as noites que a tua lembrança sangra o sonho. Derramo-me em polaroids descoloridas, instantâneos que retratam o medo.
Parabéns, meu pai !!!
O cachimbo no canto da boca, um ar altivo e pesado, contornos de fumo em círculos, o cheiro a ficar agarrado a cada canto da casa. O café pela manhã, a porta entreaberta, o teu dia que se pensava na sanita, muito poucas palavras, a despedida apressada. A seco, de costas, em fuga.
Parabéns, meu pai !!!
O aeroporto, porta de chegada. A espera. Brasil, Angola, EUA, locais fantasiados na tua ausência. Horas madrugadoras, muitas ramelas no bordo interno dos olhos, cabelos em desalinho, o nervosismo em palavras mais acesas naquele jogo verbal entre a mana velha e a mãe. Estavas a chegar. Em nós instalava-se devagar a tua iminente chegada. Um carro de rodas metálicas, cinzento-prata, muitas malas, talvez uma prenda desejada há muito. O teu porte imperial a irromper naquela avenida descendente. Chegaste, queríamos um abraço perdido no tempo que andaste em roda livre por todos aqueles países. Um abraço.
Parabéns, meu pai !!!
Uma vez mais, a tua voz ao telefone. Perguntavas-me todos os meses…Como estás meu filho?...A resposta invariável, está tudo bem pai, tudo bem. A escola, os manos, o Sporting, conversas à volta de nada, não sabia responder mais nada para além de tudo bem. A minha única resposta, o peso acumulado, a sensação de estar ausente na presença da tua voz. Muitos meses, anos, a ausência tornada presente entre um tudo bem, talvez, não sei, a anuência evasiva à tua forma característica de dizeres presente.
Parabéns, meu pai !!!
O Renault 25, o nosso carro-sonho. O meu pai tem um carro que fala, que nos diz quando a porta está mal fechada, o teu pai ainda conduz carros que não falam. Sim, o carro afirmava um pai idealizado na ida ao velhinho estádio de Alvalade, onde se desfilavam histórias do passado, das vitórias de um outro tempo, dos rádios a pilha encostados aos ouvidos, das almofadas “emblemadas” pelo leão, sentava-me a teu lado na fila 33 lugar 7 e esperava. Esperava que o meu imaginário fizesse rodopios em redor da tua vida num passado recente.
O mesmo carro que nos transportava até ao estádio nacional, raquetes na mão, o saibro debaixo dos pés, um jogo de match-points, bola lá, bola cá, o suor empoeirado, o esgar feliz no teu rosto, tinhas conseguido ir ao nosso encontro. Jogar ténis, voltar a ti, aos momentos fragmentados do orgulho que crescia na tua condição de pai. O meu pai tem um carro que fala, o teu não. Sim, é verdade, o meu pai…
Parabéns, meu pai !!!
17 anos e um cadeirão, eis o que me esperava quando o meu mapa de referências subitamente se transforma. Tinha chegado ao Brasil. Estava, enfim, na tua presença. O cadeirão convidava-me a estar na tua cabeceira, urgia começar a ouvir-te, apreender as histórias que te fizeram filho, pai, avô, homem de negócios, empreendedor de mãos cheias, uma admiração que crescia sempre que uma nova história se erguia no meu intimo. Ao redor, a escuridão de um quarto arrefecido pela refrigeração, as imagens televisionadas a sucederem-se, a recusa pela luz natural, novamente, as histórias de outrem, a tonalidade cinzenta, parda, descolorida que se foi sedimentando pela calada, digamos, de forma insidiosa.
Parabéns, meu pai !!!
A herança, o legado de uma condição marginal. Finanças, IRS, Segurança Social, figura de contribuinte, licenças camarárias, formalismos burocráticos, ratificações cegas, dívidas trabalhistas, entidades fantasmas, contextos ausentes de significado ao longo da tua vida. Guardo tudo isso com admiração confessa, conservo esse registo border-line em muitas instâncias da minha vida, uma impulsividade que me impele a subverter muitas coisas estabelecidas, que me empurra para o pai que ainda idealizo.
Parabéns, meu pai !!!
A tua fragilidade, um olhar que assume uma outra nuance. Não podes oscilar mais entre polaridades extremas, não, ergo o braço e digo basta. Um exercício de auto-comiseração que me deixa completamente carcomido, sem espaço para voltar a respirar ar de segurança e determinação. Dizer não, é tudo quanto me resta para te acomodar em sonhos reparadores.
Dizer NÃO ...
terça-feira, fevereiro 27, 2007
A Magia da Rádio
Porque é que será que a menina não se encosta mim quando dança? Será medo de me pisar?
José Duarte em A Menina Dança?
domingo, janeiro 14, 2007
Costa Vicentina
Onde a falésia fecha a sua curva sobre o mar, um pouco para lá do fim do areal, no exacto local onde as ondas rebentam, é lá que quero largar a âncora e deixar os meus pés enterrarem-se entre as algas.
domingo, dezembro 17, 2006
Fora de moda
Por estes dias, ao parar na conversa de uns tantos transeuntes, volto à ideia de manifestar as minhas intenções para a vida, os meus propósitos na relação que mantenho com todos os outros. Aqueles diziam "...ó Felizmino, porra!!!! Chega dessa merda de andares sempre a dar o dito pelo não dito. Vamos mas é colocar a coisa no papel...". De repente, comecei a sentir-me o Felizmino daquela história, ou seja, urge untar a mão à laia de compromisso de honra. Inspirado pelas figuras romanescas que preenchem os livros da minha infância, apetece-me dar forma a um compromisso que pretendo consagrar no tempo que me coube em sorte. Em texto corrido ou saltitante aqui vai disto…
Fazer o belo cocó todos os dias (um pouco de escatologia para começar assenta bem, dizem por aí)
Erguer o meu espaço, uma casa que possa ser central na vida dos meus – família e amigos. Imagino vários montes de livros, receitas de cozinha, estatuetas africanas, cd´s, quase a delimitar um mapa das coisas que me são caras. Não pode deixar de haver muitas plantas, uns quantos animais (tudo menos pombos), e sim, uma cozinha com forno a lenha onde eu possa demorar-me nos meus cozinhados, um dia, muito afamados. Outras tantas cores nas paredes feng-shui, uma cama XXL onde a malfadada roncopatia não te possa incomodar, um trampolim para fazer saltitar as ideias que pululam aqui dentro, uma juke-box com selecção musical própria. Tudo isto a pulsar com a visita, a estadia, o cruzamento de todos aqueles a quem estendo um grande abraço.
Construir uma história…
Poder-me rir às bandeiras despregadas com o primeiro cocó, as primeiras palavras (que seja papá, ou vá lá, Ri ri ca do), os primeiros arranhões, o primeiro olhar constrangido para aquela amiguinha tão bonita, enfim, os contornos iniciais de uma outra condição nas nossas vidas.
De infâncias reconstruídas com o labor reflexivo…
Manter o mais velho dos rituais que me estruturam, o encontro semanal com os jornais. Outrora o Globinho, a revista Manchete, passando pelo Record e as páginas desportivas do Público, o Independente e a irreverência made by MEC, novamente o Globo e a histórica revista Cruzeiro, como esquecer o DNA, absolutamente decisivo para estar na vida de uma outra forma, agora o Y e a Sexta, que ainda têm que se fazer à vida para perdurarem nestas memórias.
Um galão e uma torrada com grossas camadas de manteiga…
Voltar a andar pelos sebos ou alfarrabistas conforme a origem do português, chafurdar por entre o pó, a desordem e páginas moribundas para mais uma conversa com o senhor Livreiro, artífice desse ofício de orientar outrem ao encontro do LIVRO, ou apenas um nostálgico pretexto para reencontrar aquele PAI das cercanias do Sahara carioca.
Um cavalete, alguns quadros por pintar, muita tinta espalhada…
Poder sentar à beira de um mar idealizado por minha MÃE desde sempre. Um alpendre demorado em dunas douradas, a tranquilidade ambicionada, um rosto sulcado pela paz. Sentaremos, mãe. Eu, tu, Sofia, Marta, Tiago e Diogo, sim, Sentaremos.
Um grande puff no meio da sala, auscultadores no ouvido…
Vocês, meus manos, fiquem a saber que estarei por perto quando a vida teimar na errância, ou nos outros momentos em que podemos sorrir de coração livre. Sempre por perto, mesmo que a distância se imponha.
O saxofone enlevado por um certo violino…
Um terreno, uma terra fértil dos meus sonhos de menino bom, a companhia de todos que tanto amo, a certeza que estou a deitar mãos à minha obra. Com vagar, feita em fios de filigrana, no ritmo próprio de uma outra idade. Natural e simples, sem excessos e sujidade, no tom certo.
O mosaico retalhado das nossas vidas em película fotográfica…
Dar vida à revienga de uma bola de Catchu, as suas travessuras por entre pernas alheias. Nunca deixar morrer essa infância feita com uma bola debaixo do braço e a expectativa de fascinar o mundo através dessa arte de esférico nos pés.
Uma rede ocupada por essa invejável capacidade de nada fazer, apenas planar…
Não calar a inquietude que alimenta a minha avidez pela pessoa humana. Essa que se revela nos autores que subsidiam o meu imaginário, nos quadros que aprumam a minha estética pessoal, na música que me ensinou a conceber paisagens sonoras, no encontro fortuito nas veredas da grande urbe.
Os corpos despidos sob o calor de lenha incandescente…
Perder-me na Dança que dispensa tudo, palavra, olhar, intelecto. Apenas toque numa relação que se adensa em ímpeto, desejo, instinto. Trata de sermos um pouco animais, tribais, carnais e outros tantos ais. O som único do bandaneon de Piazzola, a beleza que se afirma na ousadia pelo risco, pela não-normalidade de dois trapezistas em frágil equilíbrio sobre o abismo. Tango. Vida ou morte.
O sorriso leve-leve a provocar ressonâncias de emoção…
Quando uma outra idade chegar, poder sentar na cadeira do meu Avô, reunir filhos e netos, e, finalmente, tornar-me um Contador de Histórias. Contar uma vida plena, sem censuras, limites, imposições, em que as personagens possam aludir a Vinicius – o meu parceirinho de sempre – no seu desígnio de viver no Absoluto. Contar os outros, Contar-me, Contar-vos.
Amar tudo em ti…Sempre…
sexta-feira, dezembro 15, 2006
A banheira que diz olá...
Aproximo-me, um primeiro olhar, paredes outrora alvas a dar forma à banheira onde todos os dias, cumpro o ritual. Sinto os primeiros estremecimentos, qual monstro que desperta ao primeiro sinal de alerta...
Abro a torneira esquerda, a da água quente (por vezes, convém traduzir), o primeiro bom dia, a água que escorre aos soluços, hesitando em cair, teimando em não ficar quente. Abro a cortina, enfio-me na dita, ouço a minha voz...Estou pronto!!!!
O corpo arrefece, começa a dar sinais de alguma irritação. A tal quase sorri...
Aos segundos sinais de vida da referida, vulgo vibração, cedo em abrir mais a torneira vermelha, agora sim, água límpida a cair, a jorrar em abundância sobre a mesma. Com água a ferver, por premeditação daquela, obrigo-me a abrir a torneira fria, e aqui instala-se o conflito...
Passo a instrumentar o jogo de torneiras, ora para a direita, talvez para a esquerda, de volta à quente, num diálogo estranho, pouco compreensível, aludindo a muito mais que um bom dia...Como se a respectiva, não estivesse interessada em fazer ouvir as suas palavras. Apenas ruído, e muita provocação. Uma molequada, uma travessura de menina levada...
A custo, vou tirando o sabão, e decido-me por encerrar o diálogo. Há coisas mais interessantes para fazer, do que enredar-me nas provocações de uma banheira qualquer...
sexta-feira, dezembro 08, 2006
Na mouche, sr. Proust
domingo, novembro 26, 2006
Soneto
(Vinicius de Moraes)
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
o seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Estoril, Outubro, 1939
sexta-feira, novembro 24, 2006
Fazer acrobacias...
Aprendi a escalar montanhas. Sou alpinista
OS ACROBATAS
(Vinicius de Moraes)
Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
o grande mar de estrelas
Através de milénios de luz.
Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
na calma convulsa da ascensão.
Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
lá onde o infinito
de tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!
Tensos
pela corda luminosa
que pende invisível
e cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
do grande mar de estrelas
onde dorme a noite
Subamos!
Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
na fibra do pescoço
os pés agudos em ponta.
Como no espasmo.
E quando
lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus
Num último impulso
libertados do espírito
despojados da carne
Nós nos possuiremos.
E morreremos
Morreremos alto, imensamente
IMENSAMENTE ALTO.
quinta-feira, novembro 09, 2006
Ouve lá, senhor Golfinho...

Entrar com passos seguros, o sono de quem irrompe o dia a horas madrugadoras, sentar-me no lugar de sempre, colar-me à janela, espreitar de soslaio a vizinhança cercana, apalpar os próximos minutos, colar-me à janela. Uma nova mirada aos semblantes laterais, quiça, a beleza num piscar de olhos....
- Ouve lá, Senhor Golfinho, este governo chupa-nos até o tutano
Primeiras gordas na Sexta ou Y, talvez Kyoto dos jardins japoneses com desenho harmonioso de crisântemos, flôr de lótus, e a silhueta de um corpo imaginado por entre quimonos vários. Cai a chuva, o dia assume os tons da noite, a sucessão de aldeias desta urbe, as caras familiares, os putos e as suas malas Sportbilly a caminho da escola. Espera-os aquelas aulas de matemática, em que a vergonha e a inibição obriga a professora a apontar o menino Golfinho na pauta colorida em 3 por 4...
- Menino Golfinho, venha ao quadro resolver esta equação de segundo grau!!!
Às vezes, o meu lugar permanece ocupado. Pressinto logo o que aí vem. Começo a sentir as silhuetas avantajadas de uns e umas, a roçar pegajosamente o meu ombro esquerdo. Efeitos outros de uma mini e sande de corato depois do Olivais e Moscavide aviar o Alcochetense com uma valente goleada, uma cintura que cresce proporcionalmente ao número de filhos, ou a bejeca despachada ao fim do dia quando o patrão insiste em chamar o senhor Golfinho ao seu escritório. A frieza tirana dos números logo dispara...
- Senhor Golfinho, ou isto melhora ou pode-se dar o azar de ....
O oitenta um da carris - Prior Velho/ Praça do Comércio - está a chegar a um dos seus destinos, a estação fluvial do tejo. Levanto-me a tempo de sentir aquele bafo de uma senhora bonita que insiste em mostrar a todos, que boca lavada e hálito fresquinho é a primeira condição para que o dia possa ter contornos positivos.
- Senhor Golfinho, às vezes os odores podem tramar a vida de uma pessoa!!!
A ponte, o exercício de trigonometria (seno+coseno+ seno), duas formas triangulares em suspenso sobre o rio. Sinto-me sempre um personagem do Smoke, a voltar ao mesmo lugar a cada manhã, quase à mesma hora, para flagrar a respiração própria de cada dia através DA imagem. Para Paul Auster, a esquina, no meu quotidiano a ponte.
- Senhor Golfinho, saudades à patroa!!!
Volto a dormir até à cidade de sonho e futuro como se afirma em outdoor camarário. Quando acordo, sento-me ao lado de uma criança que me mostra um futuro onde deixou de ser possível sonhar. Será??


